quinta-feira, 27 de junho de 2024

Uma vida sem razão.

O dia amanhecia, como sempre, anunciando a continuidade da vida numa sinfonia de sons infindáveis.

Lentamente, espreguiçou-se sem ter pressa alguma. Não tinha pressa, nunca tivera, porque só agora se preocuparia com a pressa? Depois de uma noite mal dormida, ora por causa do frio, ora por causa do gato. Não via motivo para se apressar.

Olhou as horas. Tinha mais uns instantes ainda de espera. Espera... Era só o que tivera na vida: espera. Aliás, era o que fazia a vida toda, esperar. Com seus trinta e poucos anos, só o que fazia era esperar, ou, melhor dizendo, tinha somente a espera como motivação. O que esperava? Vida melhor? A felicidade escorrendo pela calçada do infinito? Um novo amor? A satisfação de poder todas as manhãs, acordar para a vida sem razão?

Queria segurar o tempo. Mas não tinha como aprisionar o tempo. Precisaria primeiro aprisionar a espera. Talvez depois, aprisionar o tempo. O que lhe ensinaram não foi por ele aguardado como se deveria. Sempre fora um menino dispersivo, distraído, avoado, como dizia a mãe.

Aprendera quase tudo, leu vários e importantes livros, porém o essencial não foi captado, não sorveu o mecanismo essencial da lição. Não lhe ensinaram que o tempo é mera seqüência fútil de fatos irreversível.  Também buscava a prosperidade, não a prosperidade material, mas a prosperidade encravada na espera. O que não sabia era que não há prosperidade na inutilidade. Então, por que continuava esperando. Amor não era. Uma simples companhia? Quem sabe? Se tivesse aprendido a lição como todos aprenderam, saberia o momento certo para capturar a espera e, conseqüentemente o tempo. Se soubesse não estaria angustiado. Poderia ser livre novamente.

Olhou ao redor demoradamente. Os objetos continuavam existindo sem a sua intromissão, do menor até ao maior, permaneciam em seus lugares. Explodia nele a vontade em destruir tudo que o rodeava.

Precisava tomar uma atitude. Talvez até radical. E a coragem? Tinha coragem para isso? Não tinha resposta. Então como deixaria de ser prisioneiro? Teria de quebrar as grades da prisão. Colocar-se em ação, criar, movimentar-se, desfazer a imagem de covarde, ressurgir do nada o eu não nascido, ficar livre da esperança e, prender o tempo.

Nisso cruzou com dois rapazes. Estavam alegres. Conversavam animadamente. Viu a felicidade pousada nos sorrisos dos rapazes. Sentiu inveja, um desejo de ser um deles. Ficou observando os dois se misturando a multidão tendo no peito a angústia de ser ele mesmo sozinho. Balançou a cabeça, deu de ombros. A sorte eram deles em ter um ao outro, pensou serenamente.

Doloroso era o processo de seguir, não parar, demonstrar otimismo sem ter doloroso caminhar sem uma direção certa. Sua vida não tinha razão nenhuma de ser. Estava sempre a espera, não aprisionava o tempo, só, sem companhia, vivia apenas covardemente, não sabia o que fazer.

Depois de caminhar quase o dia inteiro, sem saber, deparou com a água poluída do rio. E, sem razão nenhuma, seu corpo bateu na água imunda sumindo logo em seguida.

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