Correu o dedo pela folha amarela.
Dobrou o canto da folha e guardou o livro na mochila. Em seguida,
despretensioso, ajeitou o olhar castanho claro quase verde, como dizia sua mãe,
num longo demorado desejo de observar o que se passava ao redor do corpo.
Quieto viu o som irritante da geladeira; a voz de Luciano do Vale berrando o
jogo na televisão podre de imagens esfaceladas; a estridente voz da Denise
conversando; os passos esquecidos transitando na calçada banhada pela luz da
tarde que aos poucos se aproximava; os carros, complemento humano, rasgando o
ar cheio de indecisões. Observava quieto tomando à caipirinha e escrevendo
palavras tortas no correr da caneta sobre as folhas da ensebada agenda velha.
De repente... Gostava dessa palavra: De repente... De repente sua atenção foi
desviada. O ar da estreita lanchonete se impregnou de um forte perfume
sufocando-o. Era o freguês de todas as tardes, veio tomar seu quinhão de veneno
com água gasosa. Apressado tomou de um gole só saindo logo em seguida. Vestia a
camisa preta e branca do Corinthians talvez, foi à procura de emoções mais
fortes. Em frente, no Amor aos Pedaços, famintos de açúcar saboreavam outro
tipo de veneno servido ora pela bela moça morena, ora pelo esquálido rapaz.
Cena cotidiana salpicada de
movimentos que se fixam no papel do tempo irrecuperável. Cena que se repete
todas as tarde, mas com intensidades diferentes. São conseqüências diversas
onde nada sendo o que na tarde anterior era. Posso todos os dias sentar neste
banquinho e observar o que na aparência parecerá tudo igual um dia após o
outro, contudo observando no concreto dos atos, das ações, nos rostos de cada
um, nada será igual, nada será como antes... Porém, ah! Porém... Viver sempre é
gratificante...
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