segunda-feira, 17 de junho de 2024

Viver é sempre gratificante

  

Correu o dedo pela folha amarela. Dobrou o canto da folha e guardou o livro na mochila. Em seguida, despretensioso, ajeitou o olhar castanho claro quase verde, como dizia sua mãe, num longo demorado desejo de observar o que se passava ao redor do corpo. Quieto viu o som irritante da geladeira; a voz de Luciano do Vale berrando o jogo na televisão podre de imagens esfaceladas; a estridente voz da Denise conversando; os passos esquecidos transitando na calçada banhada pela luz da tarde que aos poucos se aproximava; os carros, complemento humano, rasgando o ar cheio de indecisões. Observava quieto tomando à caipirinha e escrevendo palavras tortas no correr da caneta sobre as folhas da ensebada agenda velha. De repente... Gostava dessa palavra: De repente... De repente sua atenção foi desviada. O ar da estreita lanchonete se impregnou de um forte perfume sufocando-o. Era o freguês de todas as tardes, veio tomar seu quinhão de veneno com água gasosa. Apressado tomou de um gole só saindo logo em seguida. Vestia a camisa preta e branca do Corinthians talvez, foi à procura de emoções mais fortes. Em frente, no Amor aos Pedaços, famintos de açúcar saboreavam outro tipo de veneno servido ora pela bela moça morena, ora pelo esquálido rapaz.

Cena cotidiana salpicada de movimentos que se fixam no papel do tempo irrecuperável. Cena que se repete todas as tarde, mas com intensidades diferentes. São conseqüências diversas onde nada sendo o que na tarde anterior era. Posso todos os dias sentar neste banquinho e observar o que na aparência parecerá tudo igual um dia após o outro, contudo observando no concreto dos atos, das ações, nos rostos de cada um, nada será igual, nada será como antes... Porém, ah! Porém... Viver sempre é gratificante...      

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