O ônibus não estava cheio. Ainda
bem. Tinha um banco desocupado. Melhor ainda. Eram dez para sete quando cheguei
na plataforma do Tatuapé. Que droga! Antigamente nesse horário já estava na Sé.
No terceiro trem, com muito custo, num empurra aqui, empurra ali, entrei. As
pessoas se acham donas do lugar. “Esse lugar é meu e daqui não saio”, parecem
dizer com o corpo rígido sem que se consiga movê-lo. Meus pés ficam numa
posição desequilibrada. O direito entre as pernas da moça a minha frente, o
esquerdo entre as pernas do rapaz que lê um livro, virado de frente para mim.
Um joelho acaricia uma coxa macia gostosa, o outro uma coxa dura nada
agradável. Preciso mudar de posição, senão daqui a pouco estarei acariciando a
bunda da moça e o pênis do rapaz. Credo! Que pensamento torpe. Mas não há
necessidade, pois o rapaz se vira, dando-me as costas. Agora são duas bundas
que meus joelhos acariciam. O metrô chega no Braz. Sou empurrado espremendo
rapaz e a moça. Preciso erguer a cabeça para que o cabelo preto da moça não
roce meu nariz. Viro a cabeça e deparo com a nuca peluda do rapaz. Ainda bem
que são só duas estações. Na Sé, a caterva desembestada desce as escadas como
se o mundo fosse acabar. Espero pouco tempo. Não me acanho mais em sentar nos
bancos cinza. Na estação Paraíso o trem vem vazio e, como sempre, há um banco
cinza desocupado. Uma moça ia sentando, como me viu, cedeu o lugar, claro que
agradeci. Quando saia da estação Consolação, ganhando a avenida que começava
ficar ensolarada, era mais ou menos sete horas e 20 minutos.
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