terça-feira, 23 de julho de 2024

Sete horas e vinte minutos

  

O ônibus não estava cheio. Ainda bem. Tinha um banco desocupado. Melhor ainda. Eram dez para sete quando cheguei na plataforma do Tatuapé. Que droga! Antigamente nesse horário já estava na Sé. No terceiro trem, com muito custo, num empurra aqui, empurra ali, entrei. As pessoas se acham donas do lugar. “Esse lugar é meu e daqui não saio”, parecem dizer com o corpo rígido sem que se consiga movê-lo. Meus pés ficam numa posição desequilibrada. O direito entre as pernas da moça a minha frente, o esquerdo entre as pernas do rapaz que lê um livro, virado de frente para mim. Um joelho acaricia uma coxa macia gostosa, o outro uma coxa dura nada agradável. Preciso mudar de posição, senão daqui a pouco estarei acariciando a bunda da moça e o pênis do rapaz. Credo! Que pensamento torpe. Mas não há necessidade, pois o rapaz se vira, dando-me as costas. Agora são duas bundas que meus joelhos acariciam. O metrô chega no Braz. Sou empurrado espremendo rapaz e a moça. Preciso erguer a cabeça para que o cabelo preto da moça não roce meu nariz. Viro a cabeça e deparo com a nuca peluda do rapaz. Ainda bem que são só duas estações. Na Sé, a caterva desembestada desce as escadas como se o mundo fosse acabar. Espero pouco tempo. Não me acanho mais em sentar nos bancos cinza. Na estação Paraíso o trem vem vazio e, como sempre, há um banco cinza desocupado. Uma moça ia sentando, como me viu, cedeu o lugar, claro que agradeci. Quando saia da estação Consolação, ganhando a avenida que começava ficar ensolarada, era mais ou menos sete horas e 20 minutos.

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