segunda-feira, 15 de julho de 2024

Sou covarde.

 

Sou covarde, sabia? Ah! Não sabia! Deixei transparecer nas entrelinhas e você não percebeu? Não, não percebeu, eu sei. Quem diria! Pensei que fosse mais perspicaz com as coisas ditas e escritas. Vejo que me enganei. Mas sabe o abismo sempre me fascinou. Tenho até uma atração mórbida por ele. Exerce sobre mim uma pressão que às vezes penso me entregar a ele. Sofro de uma vontade louca em conhecê-lo, ver, sentir o que há nele, porém, e a coragem! É não tenho coragem de me atirar nele e não conseguir voltar mais. Por isso não topei o convite que eu tinha feito. Vi nessa atitude o abismo, não, não, por favor, não era você o empecilho, mas, o ato que estava pronto a realizar. Quando sugeri, quando fiz a proposta, estava a fim de me atirar de cabeça, ver no que daria toda aquela loucura. Você sem relutar, o que achei normal, se encontrava num desespero e eu, creio lhe parecia ser a tabua de salvação, sem pestanejar aceitou a proposta, o que me deixou assustado. Naquele momento achei, desculpe não quero ofendê-lo, que você estava se vendendo. Tudo bem, você estava com a corda no pescoço, mas mesmo assim achei que você não aceitaria. Isso me assustou. Entende? 

Sim me assustou. Por quê? Ora porque ali naquele momento em que você disse: sim, aceito e estipulou suas condições, vi diante dos meus olhos o abismo. Não vi em você o perigo, mas no ato que eu estava fazendo levando você junto comigo, e, aí pensei: o abismo, o ir além do que eu sou, do que eu quero e que me fascina, será que conseguiria cair nesse abismo e voltar à superfície? A tentação era enorme, conhecer a pele, o cheiro, a caricia, os afagos, a parede do desejo, as sensações em que estaríamos envolvidos me aterrorizou. Pois sabe muito bem que preso ao meu karma de lúgubre burguês e, covarde como sou, não daria mesmo certo.

Um dia sei que não resistirei. E quando esse dia acontecer saiba que no fundo do poço estará alguém que sempre relutou contra a covardia e, que por fraqueza se entregou.

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