Sou covarde, sabia? Ah! Não sabia! Deixei transparecer nas entrelinhas e
você não percebeu? Não, não percebeu, eu sei. Quem diria! Pensei que fosse mais
perspicaz com as coisas ditas e escritas. Vejo que me enganei. Mas sabe o
abismo sempre me fascinou. Tenho até uma atração mórbida por ele. Exerce sobre
mim uma pressão que às vezes penso me entregar a ele. Sofro de uma vontade
louca em conhecê-lo, ver, sentir o que há nele, porém, e a coragem! É não tenho
coragem de me atirar nele e não conseguir voltar mais. Por isso não topei o
convite que eu tinha feito. Vi nessa atitude o abismo, não, não, por favor, não
era você o empecilho, mas, o ato que estava pronto a realizar. Quando
sugeri, quando fiz a proposta, estava a fim de me atirar de cabeça, ver no que
daria toda aquela loucura. Você sem relutar, o que achei normal, se encontrava
num desespero e eu, creio lhe parecia ser a tabua de salvação, sem pestanejar
aceitou a proposta, o que me deixou assustado. Naquele momento achei, desculpe
não quero ofendê-lo, que você estava se vendendo. Tudo bem, você estava com a
corda no pescoço, mas mesmo assim achei que você não aceitaria. Isso me
assustou. Entende?
Sim me assustou. Por quê? Ora porque ali naquele momento em que você
disse: sim, aceito e estipulou suas condições, vi diante dos meus olhos o
abismo. Não vi em você o perigo, mas no ato que eu estava fazendo levando você
junto comigo, e, aí pensei: o abismo, o ir além do que eu sou, do que eu quero
e que me fascina, será que conseguiria cair nesse abismo e voltar à superfície?
A tentação era enorme, conhecer a pele, o cheiro, a caricia, os afagos, a parede
do desejo, as sensações em que estaríamos envolvidos me aterrorizou. Pois sabe
muito bem que preso ao meu karma de lúgubre burguês e, covarde como sou, não
daria mesmo certo.
Um dia sei que não resistirei. E quando esse dia acontecer saiba que no
fundo do poço estará alguém que sempre relutou contra a covardia e, que por
fraqueza se entregou.
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