ROMANCE VERDE
Osvaldo Luiz Pastorelli
Ficou olhando as palavras impressas no papel branco
da ensebada agenda: Romance verde. Por que romance? Não gostava de romance,
isto é, nunca conseguira escrever um. Ainda mais verde! Por que verde? Não
tinha predileção por nenhuma cor, aliás, tinha uma queda pelo cinza e suas
variações de tons, mas nada que se pudesse dizer que ele fosse um fanático.
Nada disso. Então, por que verde? Ainda mais romance! Escarafunchou a mente e
nada achou no labirinto de idéias, que em grupos sistemáticos eram arquivadas
no inconsciente.
O sol ardia numa constância de brilho estampando
sombras — verdes?! — em formas variadas nos concretos da vida. Coçou o queixo,
uma proeminente penugem de barba crescia no seu rosto ovalado. Sua visão de
águia — sempre achara que enxergava como uma — planava por longínquas
distâncias de branco e meios-tons de cinza. Não via nada verde. Só o cinza
predominante, poucos brancos e nenhum verde. Que merda! De onde saíra essa
esquisitice de verde, meu Deus?! Voltou a atenção para a agenda ensebada e pela
décima vez leu: Romance verde.
Largou tudo. Achou melhor largar tudo. Tomou um bom
gole de água gelada. E uma onda de energia fria foi tomando conta dele. Sentiu
a pontada de uma pequena lembrança, sabia de onde vinha essa sensação, não se
esforçou em barrá-la, deixou, abriu os canais sensitivos e preparou-se para
recebê-la.
E quando ela chegou, perdeu o domínio. Resignou-se.
Só podia fazer isso naquele momento. Refestelou-se na cadeira e procurou,
embalado pela música, apreciar o movimento do tempo. Que mais poderia fazer,
prostrado diante da circunstância, cuja pressão vinha da palavra verde escrita
na agenda ensebada? Nesse instante, como o brilho de um fósforo riscado, em sua
mente surgiu a pergunta que se esfacelava no asfalto quente, escorrendo em
pequenas gotas de suor. Onde estariam os olhos verdes que diziam amá-lo? Tentou
imaginar o que estariam fazendo. Mil coisas, talvez. Contanto que estivessem
pensando nele, tudo bem. Na vida, escreveu, tudo é possível, o que não é
possível é amar e não ser amado. Ele era amado? Julgava que sim, pois todos os
dias se falavam ao telefone...
Com os olhos despreocupados e, evidentemente satisfeitos,
alongou-se indolentemente, abrangendo o verde do outro lado da rua, onde o
caminhão da prefeitura esvaziava duas caçambas de lixo, encostadas ao muro. Os
garis puxavam a caçamba perto do caminhão e, por um sistema de alavancas e
ganchos, o conteúdo era jogado para dentro, onde o maquinário triturava o lixo.
Um cheiro forte de comida e outras coisas estragadas atravessou a rua e chegou
até ele, obrigando-o, por momentos, a tapar o nariz. Ainda bem que já tinha
almoçado. Olhou para os lados, as pessoas reclamavam.
— Nada posso fazer — disse o proprietário, ao atender
à reclamação da senhora na mesa ao lado.
Realmente, é uma coisa insuportável, que se tornava
suportável por se estar ali tão somente por necessidade.
— Daqui a uns dez minutos o cheiro some — retrucou o
garçom.
De fato, depois que o caminhão esvaziou as caçambas e
foi embora, ninguém mais se preocupou com o cheiro ruim. O ser humano gosta de
reclamar para ser notado ou, mesmo, por ter que reclamar, simplesmente.
Pouco depois a calma voltou a reinar, então pôde se
entregar, de novo, aos pensamentos. Assim seus olhos enfatizaram o verde mato
protegido pelo precário muro, denotando falta de cuidado, cheio de buracos
imensos, por onde o mato invadia a calçada. E crescia desordenadamente. Mesmo
não vendo, podia ter certeza de que as raízes ferozes de vida se aprofundavam
no solo, se esparramando em várias direções. Mas o verde que o pressionava, que
o deixava perturbado não era o verde visível, concreto, era o verde que lhe
vinha à mente por algum motivo e que o fez escrever na agenda velha e ensebada
as palavras: Romance verde.
Romance verde?! Contornou de leve as letras, uma por
uma, com a ponta do dedo. Notou a aspereza concreta das palavras sem que
pudesse assimilar o seu abstracionismo. Sorriu. Mansamente, percebeu que
escrevera sob comando alcoólico e que não percebera quando seus grossos dedos
fizeram com que a esferográfica deslizasse sobre as linhas da agenda velha e
ensebada. Deduzia que uma insignificante obsessão tomava seu ser. Precisava pôr
um fim nesse descontrole emocional. Chamou o garçom. Pagou a conta e saiu.
Quando entrou no metrô, o sol começava a declinar,
dando passagem para a noite que já envolvia os transeuntes em meio aos
luminosos das vitrines. Transitava entre sentir de dentro dele e sentir de fora
o que ressurgia em pequena amargura. Escalou os picos do sentimento,
demorando-se um pouco a presenciar a população regurgitante em seus movimentos
cheios de medos implícitos.
Pulsava o sangue nas veias incandescentes, aflorando
a dor crônica.
Encostou a cabeça à janela do trem e fechou os olhos.
Deixou seu destino entregue ao sono que o vencia naquele momento.
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