quinta-feira, 1 de agosto de 2024

ROMANCE VERDE

 

ROMANCE VERDE

 

Osvaldo Luiz Pastorelli

 

Ficou olhando as palavras impressas no papel branco da ensebada agenda: Romance verde. Por que romance? Não gostava de romance, isto é, nunca conseguira escrever um. Ainda mais verde! Por que verde? Não tinha predileção por nenhuma cor, aliás, tinha uma queda pelo cinza e suas variações de tons, mas nada que se pudesse dizer que ele fosse um fanático. Nada disso. Então, por que verde? Ainda mais romance! Escarafunchou a mente e nada achou no labirinto de idéias, que em grupos sistemáticos eram arquivadas no inconsciente.

O sol ardia numa constância de brilho estampando sombras — verdes?! — em formas variadas nos concretos da vida. Coçou o queixo, uma proeminente penugem de barba crescia no seu rosto ovalado. Sua visão de águia — sempre achara que enxergava como uma — planava por longínquas distâncias de branco e meios-tons de cinza. Não via nada verde. Só o cinza predominante, poucos brancos e nenhum verde. Que merda! De onde saíra essa esquisitice de verde, meu Deus?! Voltou a atenção para a agenda ensebada e pela décima vez leu: Romance verde.

Largou tudo. Achou melhor largar tudo. Tomou um bom gole de água gelada. E uma onda de energia fria foi tomando conta dele. Sentiu a pontada de uma pequena lembrança, sabia de onde vinha essa sensação, não se esforçou em barrá-la, deixou, abriu os canais sensitivos e preparou-se para recebê-la.

E quando ela chegou, perdeu o domínio. Resignou-se. Só podia fazer isso naquele momento. Refestelou-se na cadeira e procurou, embalado pela música, apreciar o movimento do tempo. Que mais poderia fazer, prostrado diante da circunstância, cuja pressão vinha da palavra verde escrita na agenda ensebada? Nesse instante, como o brilho de um fósforo riscado, em sua mente surgiu a pergunta que se esfacelava no asfalto quente, escorrendo em pequenas gotas de suor. Onde estariam os olhos verdes que diziam amá-lo? Tentou imaginar o que estariam fazendo. Mil coisas, talvez. Contanto que estivessem pensando nele, tudo bem. Na vida, escreveu, tudo é possível, o que não é possível é amar e não ser amado. Ele era amado? Julgava que sim, pois todos os dias se falavam ao telefone...

Com os olhos despreocupados e, evidentemente satisfeitos, alongou-se indolentemente, abrangendo o verde do outro lado da rua, onde o caminhão da prefeitura esvaziava duas caçambas de lixo, encostadas ao muro. Os garis puxavam a caçamba perto do caminhão e, por um sistema de alavancas e ganchos, o conteúdo era jogado para dentro, onde o maquinário triturava o lixo. Um cheiro forte de comida e outras coisas estragadas atravessou a rua e chegou até ele, obrigando-o, por momentos, a tapar o nariz. Ainda bem que já tinha almoçado. Olhou para os lados, as pessoas reclamavam.

— Nada posso fazer — disse o proprietário, ao atender à reclamação da senhora na mesa ao lado.

Realmente, é uma coisa insuportável, que se tornava suportável por se estar ali tão somente por necessidade.

— Daqui a uns dez minutos o cheiro some — retrucou o garçom.

De fato, depois que o caminhão esvaziou as caçambas e foi embora, ninguém mais se preocupou com o cheiro ruim. O ser humano gosta de reclamar para ser notado ou, mesmo, por ter que reclamar, simplesmente.

Pouco depois a calma voltou a reinar, então pôde se entregar, de novo, aos pensamentos. Assim seus olhos enfatizaram o verde mato protegido pelo precário muro, denotando falta de cuidado, cheio de buracos imensos, por onde o mato invadia a calçada. E crescia desordenadamente. Mesmo não vendo, podia ter certeza de que as raízes ferozes de vida se aprofundavam no solo, se esparramando em várias direções. Mas o verde que o pressionava, que o deixava perturbado não era o verde visível, concreto, era o verde que lhe vinha à mente por algum motivo e que o fez escrever na agenda velha e ensebada as palavras: Romance verde.

Romance verde?! Contornou de leve as letras, uma por uma, com a ponta do dedo. Notou a aspereza concreta das palavras sem que pudesse assimilar o seu abstracionismo. Sorriu. Mansamente, percebeu que escrevera sob comando alcoólico e que não percebera quando seus grossos dedos fizeram com que a esferográfica deslizasse sobre as linhas da agenda velha e ensebada. Deduzia que uma insignificante obsessão tomava seu ser. Precisava pôr um fim nesse descontrole emocional. Chamou o garçom. Pagou a conta e saiu.

Quando entrou no metrô, o sol começava a declinar, dando passagem para a noite que já envolvia os transeuntes em meio aos luminosos das vitrines. Transitava entre sentir de dentro dele e sentir de fora o que ressurgia em pequena amargura. Escalou os picos do sentimento, demorando-se um pouco a presenciar a população regurgitante em seus movimentos cheios de medos implícitos.

Pulsava o sangue nas veias incandescentes, aflorando a dor crônica.

Encostou a cabeça à janela do trem e fechou os olhos. Deixou seu destino entregue ao sono que o vencia naquele momento.

 

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