segunda-feira, 16 de setembro de 2024

O gato.

  

- Porque o senhor não  pergunta para o Japonês?

- E você acha que o gato vai estar lá?

- Eu acho.

- E como você pode ter certeza?

- Ele não estava seguindo a gata preta?

- Estava.

- E até fez aquela barulheira de madrugada.

- É que bateram nas tábuas debaixo da janela.

- A gata preta é do Japonês, se não for dele, é da outra vizinha.

- Não vai adiantar. E depois, se ele falar: É, o gato está aqui sim, mas é da minha filha. O que eu vou dizer.

- Pede para ele provar.

- Provar! Se realmente ele fosse nosso... Mas, ele chegou assim como não quer nada e foi ficando.

É, chegou como não quer nada e foi ficando.

Nunca tivemos um animal, não por que não queríamos, mas porque morando no terreno da casa da sogra, já viu.

Mas o gato chegou miando pelos cantos do terreno, vinha na gente batia com a cabeça com uma certa força na perna como se quisesse algo. Colocamos água, leite, pedaços de carne que meio a contragosto foi comendo.

Cinza, pelo suave, curto, bonito, com uma coleira que, depois ficamos sabendo ser antipulga. Na verdade ele não tinha pulga, não tinha nada que o desabonasse. Parecia ser um gato de madame, vivendo em apartamento, mimado, só comendo na mão da gente.

Resolvemos levar o gato na veterinária. Ah! Para tirar ele de casa, foi um trabalho! O bichano tinha medo da rua. Na primeira tentativa o gato saltou dos meus braços e fugiu para o fundo do quintal. Precisamos, com uma toalha grande, envolvê-lo totalmente, tampando sua cara e, assim mesmo, me deu várias mordidas.

A veterinária não achou nada nele, nenhuma doença, e concordou quando dissemos que era gato mimado, só comia na mão, que deveria ser de alguém que mudou e, procurando a casa antiga se perdera. Nos orientou que comida comprar, deu um remédio que ele tomou na marra e, se prontificou ficar a nossa disposição caso dela necessitássemos.

Já vai para dois meses que folgadamente ele se esparrama no sofá como se fosse o dono. Não é um gato que brinca, pula, corre, salta, não, fica quieto, o maior tempo deitado, se achega no colo da gente e fica todo encolhido.

Mas na manhã de quarta-feira estranhamos, tinha sumido. Trocamos a água, a comida e, mesmo assim não apareceu. Procuramos nos cantos do quintal e nada, não achamos. Ficamos chateados, meio triste, já estávamos nos apegando a ele.

- Isso tinha que acontecer.

- Para onde será que ele foi?

- Vai ver que voltou para sua casa.

- Não sei, acho que ele seguiu a gata preta...

- Fique sossegada, se ele tiver que voltar ele volta.

No fim da tarde já estávamos conformados. Parecia que faltava alguma coisa, sentíamos a falta dele.

À noite, estávamos assistindo CSI (Crime Scene Investigation), quando ouvimos um miado meio distante. Corremos para o quintal. Lá estava ele, miando com fome.

- Sábado vamos levar ele para a veterinária medicar suas feridas.

- Pai!

- O que?

- Mandamos castrar?

- É maldade não acha?

- Acho.

- Se ele futuramente aparecer muito machucado, aí acho que devemos castrá-lo.

 

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