Se
eu vir você de novo eu te mato, entendeu?
Disse
Luciandro aos gritos para uma Lisiandra comovida, por estar naquele momento
fazendo o que há muito tempo achava que deveria ter feito: viver sua vida
simplesmente.
Não
se sentia abalada pela ameaça de Luciandro, pois achava que ele não tinha
competência para cumprir a ameaça. Sempre fora um frouxo – pensou - ao puxar a
cadeira e olhar para os lados. Sentou-se e cruzou os braços sobre a mesa. Não
precisa demonstrar receio, disse para si mesma, relaxe os nervos. Afinal, nada
fizera para se sentir perseguida. É que, desde a ameaça do Luci – ele não
gostava de ser chamado dessa maneira – sentia como se estivesse sendo seguida.
Encravara-se nela uma paranóia, o inconsciente adotara a atitude sem o
conhecimento dela. Que mania de sentir-se perseguida, diziam as amigas. Isso é
só para chamar atenção - diziam às amigas que se diziam amigas. Não era nada
disso, sabia que não era: e então, o que era?
A
separação fora demais dolorosa. Guardava ainda os gritos de Luciandro. Como
foram terminar um relacionamento que, por parte dela, achava que estava às mil
maravilhas? É que lentamente, sem perceber, a paixão que os unira foi-se
desgastando no egoísmo individual, até que a corda, como dizia sua mãe,
arrebentou. Discutiram fora dos limites que duas pessoas ´civilizadas´ poderiam
fazê-lo, até que os vizinhos, envergonhados, chegaram até a chamar a polícia. Li não acreditava na ameaça de Luciandro, mas
por um mecanismo no sistema de preservação, passou a desconfiar que vinha sendo
seguida. E toda vez que chegava a um local olhava para todos os lados, num
gesto mecânico que nem percebia estar fazendo. Passara a ser um tique nervoso.
Li
procurou deixar o corpo ereto numa tentativa em diminuir a dor nas costas.
Chamou o garçom. Com olhar mortiço devaneou pelo ambiente da pequena lanchonete
com cadeiras distribuídas pela calçada. Escolhera uma que ficava quase
encostada à parede procurando se esconder. Era, também, uma estratégia: assim
poderia apreciar o movimento da rua e ver quem entrava e quem saia.
Assustou-se
com a voz grave do garçom. Mecanicamente pediu uma caipirinha. Caipirinha? Ao
mesmo tempo sentiu-se deprimida. Fazia tempos que não tomava nada alcoólico.
Por quê caipirinha? Queria demonstrar que não estava mais sob o jugo de Luciandro?
A verdade é que nunca dera a mínima para as proibições idiotas dele. Se não
bebia era para evitar brigas, no que não era compreendida principalmente pelas
amigas que achavam que ela estava terrivelmente perdida...e, as amigas - que se diziam amigas, a chamavam de
“dominada”. Li sabia que não era nada disso, mas não adiantava explicar, o
inevitável não tem explicação.
Acendeu
o cigarro. No momento que pousou ligeiramente a mão sobre a mesa, notou. E ao
notar o que ocorria, nada nela se alterou -, e muito menos na aparência externa
de suas feições femininamente delicadas. Assim recebeu o fato como deveria
receber, por que deveria ser assim. E sua mão, levemente pousada sobre a mesa,
se movimentou num imperceptível gesto de contração. Pequena dor percorreu todo
o seu braço, morrendo na altura do ombro. Sorriu, estava sendo observada. Foi
esse fato que fez sua mão tremer levemente. Notou o olhar do homem no outro
canto da lanchonete. Isso fez com que um clique soasse em alguma parte do seu
organismo avisando que ficasse de sobreaviso. Porque deveria se colocar em
sobreaviso, perguntou - ao beber a caipirinha. Quem seria? Alguém a mando de
Luciandro? Impossível! Com que finalidade? Seria um detetive? Será que nem de
longe estaria livre do maníaco do Luciandro? Besteira. O que tinha que fazer
era apreciar o vai e vem da rua. Acendeu outro cigarro. Sua mão tremia quase
imperceptivelmente, por dentro. Via na atitude grotesca do homem, com o
olhar fixo em seu decote, uma arrogância provocativa. Fez menção de
sair e procurar outro lugar. Mas não daria esse prazer de ser considerada por
ele uma vencida. Não, não daria esse prazer, fosse ele quem fosse.
Portanto
continuou mantendo na superfície da pele a calma necessária. Num gesto decidido
apagou o cigarro no cinzeiro já cheio. Não atinava o que faria com os dias que
agora tinha livres. Planejara sonhos, sonhos que queria realizar...e que devido
ao contratempo chamado Luciandro, foram se desvanecendo. Assim, como um
raio cristalino, um a um. Pediu mais uma caipirinha. Notou que o garçom não
tirava os olhos de suas pernas. Não se mortificou com o fato, aliás, não deu
importância: saindo dali seria totalmente esquecida. O homem continuava
observando-a. Será que era detetive? Tinha aparência de ser. Paletó, gravata,
rosto quadrado, feições rústicas, grossas sobrancelhas, nariz delicado, boca
larga, pele queimada, deveria ter um metro e noventa de altura. Tinha realmente
aparência de detetive.
Estremeceu.
Um filete estranho introduziu-se em sua mente forçando o fluxo do pensamento.
Não se preocupou com a interiorização ao surgir a idéia maluca. Precisava de
uma aventura. Melhor, queria ter uma aventura. Assim, demonstraria tanto para
ela como para Luciandro que tinha capacidade de curtir a vida com seus quase
trinta anos. Sabia-se bonita e atraente. Por quê não conquistar o homem que
estava esquadrinhando sua figura? E cujo olhar, a percorrer seu corpo
devagar deixava um rastro quente? Poderia,
assim, ter a certeza de quem ele realmente era.
Preparou-se
colocando os nervos no lugar. Deu uma ordem pra que a mão parasse de tremer.
Dirigiu o olhar ferino em direção ao homem que, para sua surpresa, já pagava a
conta.
Horrorizada,
viu o homem que provocara seu desejo tatear, à procura de algo fora de seu foco,
pegar uma bengala branca, levantar-se e sair da lanchonete. Vagarosamente.
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