domingo, 15 de setembro de 2024

O inevitável não tem explicação

  

Se eu vir você de novo eu te mato, entendeu?

 

Disse Luciandro aos gritos para uma Lisiandra comovida, por estar naquele momento fazendo o que há muito tempo achava que deveria ter feito: viver sua vida simplesmente.

 

Não se sentia abalada pela ameaça de Luciandro, pois achava que ele não tinha competência para cumprir a ameaça. Sempre fora um frouxo – pensou - ao puxar a cadeira e olhar para os lados. Sentou-se e cruzou os braços sobre a mesa. Não precisa demonstrar receio, disse para si mesma, relaxe os nervos. Afinal, nada fizera para se sentir perseguida. É que, desde a ameaça do Luci – ele não gostava de ser chamado dessa maneira – sentia como se estivesse sendo seguida. Encravara-se nela uma paranóia, o inconsciente adotara a atitude sem o conhecimento dela. Que mania de sentir-se perseguida, diziam as amigas. Isso é só para chamar atenção - diziam às amigas que se diziam amigas. Não era nada disso, sabia que não era: e então, o que era?

 

A separação fora demais dolorosa. Guardava ainda os gritos de Luciandro. Como foram terminar um relacionamento que, por parte dela, achava que estava às mil maravilhas? É que lentamente, sem perceber, a paixão que os unira foi-se desgastando no egoísmo individual, até que a corda, como dizia sua mãe, arrebentou. Discutiram fora dos limites que duas pessoas ´civilizadas´ poderiam fazê-lo, até que os vizinhos, envergonhados, chegaram até a chamar a polícia. Li não acreditava na ameaça de Luciandro, mas por um mecanismo no sistema de preservação, passou a desconfiar que vinha sendo seguida. E toda vez que chegava a um local olhava para todos os lados, num gesto mecânico que nem percebia estar fazendo. Passara a ser um tique nervoso.

 

Li procurou deixar o corpo ereto numa tentativa em diminuir a dor nas costas. Chamou o garçom. Com olhar mortiço devaneou pelo ambiente da pequena lanchonete com cadeiras distribuídas pela calçada. Escolhera uma que ficava quase encostada à parede procurando se esconder. Era, também, uma estratégia: assim poderia apreciar o movimento da rua e ver quem entrava e quem saia.

 

Assustou-se com a voz grave do garçom. Mecanicamente pediu uma caipirinha. Caipirinha? Ao mesmo tempo sentiu-se deprimida. Fazia tempos que não tomava nada alcoólico. Por quê caipirinha? Queria demonstrar que não estava mais sob o jugo de Luciandro? A verdade é que nunca dera a mínima para as proibições idiotas dele. Se não bebia era para evitar brigas, no que não era compreendida principalmente pelas amigas que achavam que ela estava terrivelmente perdida...e, as amigas  - que se diziam amigas, a chamavam de “dominada”. Li sabia que não era nada disso, mas não adiantava explicar, o inevitável não tem explicação.

 

Acendeu o cigarro. No momento que pousou ligeiramente a mão sobre a mesa, notou. E ao notar o que ocorria, nada nela se alterou -, e muito menos na aparência externa de suas feições femininamente delicadas. Assim recebeu o fato como deveria receber, por que deveria ser assim. E sua mão, levemente pousada sobre a mesa, se movimentou num imperceptível gesto de contração. Pequena dor percorreu todo o seu braço, morrendo na altura do ombro. Sorriu, estava sendo observada. Foi esse fato que fez sua mão tremer levemente. Notou o olhar do homem no outro canto da lanchonete. Isso fez com que um clique soasse em alguma parte do seu organismo avisando que ficasse de sobreaviso. Porque deveria se colocar em sobreaviso, perguntou - ao beber a caipirinha. Quem seria? Alguém a mando de Luciandro? Impossível! Com que finalidade? Seria um detetive? Será que nem de longe estaria livre do maníaco do Luciandro? Besteira. O que tinha que fazer era apreciar o vai e vem da rua. Acendeu outro cigarro. Sua mão tremia quase imperceptivelmente, por dentro. Via na atitude grotesca do homem, com o olhar fixo em seu decote,  uma arrogância provocativa. Fez menção de sair e procurar outro lugar. Mas não daria esse prazer de ser considerada por ele uma vencida. Não, não daria esse prazer, fosse ele quem fosse.

 

Portanto continuou mantendo na superfície da pele a calma necessária. Num gesto decidido apagou o cigarro no cinzeiro já cheio. Não atinava o que faria com os dias que agora tinha livres. Planejara sonhos, sonhos que queria realizar...e que devido ao contratempo chamado Luciandro, foram se desvanecendo. Assim, como um raio cristalino, um a um. Pediu mais uma caipirinha. Notou que o garçom não tirava os olhos de suas pernas. Não se mortificou com o fato, aliás, não deu importância: saindo dali seria totalmente esquecida. O homem continuava observando-a. Será que era detetive? Tinha aparência de ser. Paletó, gravata, rosto quadrado, feições rústicas, grossas sobrancelhas, nariz delicado, boca larga, pele queimada, deveria ter um metro e noventa de altura. Tinha realmente aparência de detetive.

 

Estremeceu. Um filete estranho introduziu-se em sua mente forçando o fluxo do pensamento. Não se preocupou com a interiorização ao surgir a idéia maluca. Precisava de uma aventura. Melhor, queria ter uma aventura. Assim, demonstraria tanto para ela como para Luciandro que tinha capacidade de curtir a vida com seus quase trinta anos. Sabia-se bonita e atraente. Por quê não conquistar o homem que estava esquadrinhando sua figura? E cujo olhar, a percorrer seu corpo devagar deixava um rastro quente? Poderia, assim, ter a certeza de quem ele realmente era.

 

Preparou-se colocando os nervos no lugar. Deu uma ordem pra que a mão parasse de tremer. Dirigiu o olhar ferino em direção ao homem que, para sua surpresa, já pagava a conta.

 

Horrorizada, viu o homem que provocara seu desejo tatear, à procura de algo fora de seu foco, pegar uma bengala branca, levantar-se e sair da lanchonete. Vagarosamente.

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