Num gesto enfadonho, como se estivesse cansado do mundo, guardou na bolsa o
livro. Desejava estar em outro lugar e não sentado no banquinho da lanchonete
bebendo a vida que passava a cada gole da cerveja gelada. O que queria mesmo
era estar em outro lugar, talvez na França com o amigo, mas não aceitara o
convite por motivos que nem não sabia o porque.
Tirou o caderno e escreveu: esboço para uma merda qualquer.
Silenciosamente riu.
O vento soprava na tarde abafada, balançava de leve as folhas dos cabelos das
mulheres que passavam em busca de alguma coisa além de suas vidas.
Despreocupadas, sem terem um sentido especifico, viviam por ocupar seus espaços
por que assim acreditavam que deveria ser.
Pediu outra cerveja. A garganta seca continuava sedenta, mas esforçou a
beber em pequenos goles.
E ele? Perguntou. É, e ele, vivia apenas por ocupar um espaço? Acreditava
que não. Se continuasse recusando convites, não só estaria vivendo apenas por
ocupar espaço, como caminharia para uma solitária vida. Da próxima vez
aceitaria o convite do amigo. Só que essa próxima vez estava longe de
acontecer. O amigo ganhara uma bolsa para estudar na França e, só voltaria
daqui a quatro meses.
Então uma freada de pneus no asfalto obrigou-o a virar a cabeça, e foi que
entendeu o porque de não ter aceitado o convite do amigo.
Seu irmão naquela época vivia constantemente adoentado. Os médicos não
achavam a causa. Até que um dia sendo hospitalizado veio a falecer.
Ao ver o corpo franzino em que se
tornara o irmão, esparramado como um fardo obscuro em cima da cama, engolido
pelos lençóis, viu passar em sua mente todos instantes em que vivera com ele.
Todos os instantes, desde as brigas corriqueiras até os momentos em que um
apoiava o outro. Em que disputavam a mesma garota apenas para terem a
sagacidade de ser um melhor que o outro. O que não era, e eles sabiam disso,
não precisavam de disputa nenhuma.
O falecimento do irmão foi um baque terrível, tanto para ele como para sua
mãe. Totalmente arrasada se apoiou na melhor amiga, e se não fosse ela, ele não
saberia dizer onde sua mãe hoje estaria. Considerou a vida um absurdo trágico,
o que levou a entender um pouco a morte. Não a aceitava, mas entedia o porque
de sua existência, apesar de achar em si um fato dolorosamente bonito, o que ninguém
o entenderia se expressasse realmente o seu sentimento.
Três meses após o falecimento do irmão, foi que o amigo o convidará:
“Vem, vamos para França. Vamos conhecer o que as francesas têm, tomar
champanhe gelado no Champs Elysées, escalar a Torre Eiffel, correr como loucos
pelos corredores do Louvre, vamos!”
Com a desculpa de que precisava cuidar da mãe recusou. Não queria deixá-la
sozinha foi à desculpa. Não queria reconhecer o que no fundo do seu ser
tinha certeza. Ao saber da recusa, a mãe
lhe dissera:
“Meu filho, esse seu amigo é um verdadeiro amigo. Porque não foi com ele?
Precisa sair daqui um pouco. Eu estou bem, tenho amigos que cuidam de mim e,
depois são apenas quatro meses mesmo. A Marianinha vai estar sempre comigo,
vamos todos os dias sair, eu te prometo”.
Viu nos olhos castanhos da sua mãe o que deveria fazer, mais certo, o que
ela gostaria que ele fizesse. E sabia que ela o entenderia perfeitamente.
Então como um sopro de vida compreendeu: não estava ocupando espaço por
ocupar, vivia por que valia a pena viver.
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