segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

A poça de água.

  

Era o seu aniversário. Por isso passara na loja e comprara uma bengala como presente para ele mesmo. Já que ninguém lhe dava o que ele queria, sempre ganhava presente errado. Olhou-se no espelho. Concordou, a bengala conferia-lhe realmente porte charmoso, elegante. Olhou de novo seu reflexo no espelho da loja. Não era nenhum House e muito menos David Niven, mas tinha lá sua elegância. De mais a mais, talvez a bengala favorecia a perna esquerda que, volta e meia, doía. Saiu da loja contente, sorriu para o sol que estampava alegria no sorriso dos edifícios e refletia nos carros e lojas da avenida Paulista em plena tarde de abril. Era seu aniversário, por isso sorriu feliz.

 

Caminhava devagar, não tinha pressa, queria tirar o máximo proveito do novo presente, e feito menino que ganha o brinquedo desejado, garboso, girava a bengala de um lado para o outro, como se dissesse:

 

- Olhem a minha bengala. Não estou elegante com ela?

 

Porém ninguém se preocupava com seus problemas corriqueiros não queriam nem saber dele e, muito menos da bengala. Ah! Tudo bem, pouco me importa, o que vale é o que eu sinto, pensou ao atravessar a rua. Passava em frente ao Parque Trianon quando parou indeciso. Entrava ou não no parque? Por fim deu de ombros e entrou. Notou a atmosfera gostosa e refrescante das árvores convidativas ao passeio por entre as alamedas do parque. Nisso ao pegar uma das alamedas laterais, virando de repente, deparou com uma imensa poça de água.

 

Parou. Ficou olhando para a poça com os olhos assustados, cabisbaixos. Olhou para os lados. Não viu ninguém. Do outro lado da poça também não havia viva alma. Um silêncio medonho desabou sobre ele fazendo-o arcar os ombros ligeiramente. Que raios essa poça de água está fazendo aqui atrapalhando meu passeio, perguntou-se. Olhou para traz, não, não poderia voltar, quem volta regride no tempo e na vida, dizia sua mãe, que Deus a tenha. Não era realmente de voltar por onde já tinha passado. Seguia essa regra a risca, pois se voltasse estaria retrocedendo, estaria morrendo antes da hora.

 

Parado, olhando a poça que cristalina refletia as folhas das árvores sorrindo para ele. E agora, tinha noção que as plantas a sua volta estavam perguntando. E agora o que faria? Não sabia. Precisava seguir adiante, não podia ficar parado, tinha que continuar seu passeio com a elegante bengala que comprara no seu aniversário. Pular. Poderia pular? Não, não poderia, se o fizesse, mesmo que o seu pé tocasse no outro lado, escorregaria caindo dentro da poça. Maldita poça, praguejou baixinho.

 

Imóvel, tremendo de raiva por sua impotência, desejou nunca ter comprado a bengala. Se não tivesse a bengala, não teria alimentado seu orgulho em passear como imponente cretino achando-se o tal. Quem sabe se contornasse a poça? Nada feito. Contornar significava demonstrar que era um perdedor. E perdedor é que ele não era. Então, como faria? Com a ponta da bonita bengala cutucou a água que sorriu em pequenas ondas desafiando-o. Que merda, e agora José, seu covarde, com medo de uma poça de água. Suava, tremia, a temperatura do corpo aumentou, o estomago embrulhado produzia uma acidez que subia até a garganta num arroto azedo.

 

De repente, do outro lado estava um menino que lhe sorria. Assustou-se, não viu ele chegar. Nisso, lentamente, o menino começou a atravessar a poça de água. Com os olhos aterrados viu os pés do garoto acima da água, como se levitasse. Afastou-se com medo. Estava vendo o sobrenatural. Mas em dado momento, o menino tropeçou quase caindo. Foi que viu que a poça de água era rasa. E, quando o menino passou por ele, notou que os sapatos estavam secos. Olhou para trás vendo-o desaparecer na curva da alameda no mesmo instante em que lhe lançava um sorriso de deboche.

 

Prendendo a respiração, avançou com toda empáfia, fez o mesmo que o menino. Levitou por cima da água e transpôs a poça.

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