Era o seu aniversário. Por isso passara na loja e comprara uma bengala como
presente para ele mesmo. Já que ninguém lhe dava o que ele queria, sempre
ganhava presente errado. Olhou-se no espelho. Concordou, a bengala conferia-lhe
realmente porte charmoso, elegante. Olhou de novo seu reflexo no espelho da
loja. Não era nenhum House e muito menos David Niven, mas tinha lá sua
elegância. De mais a mais, talvez a bengala favorecia a perna esquerda que,
volta e meia, doía. Saiu da loja contente, sorriu para o sol que estampava
alegria no sorriso dos edifícios e refletia nos carros e lojas da avenida
Paulista em plena tarde de abril. Era seu aniversário, por isso sorriu feliz.
Caminhava devagar, não tinha pressa, queria tirar o
máximo proveito do novo presente, e feito menino que ganha o brinquedo
desejado, garboso, girava a bengala de um lado para o outro, como se dissesse:
- Olhem a minha bengala. Não estou elegante com ela?
Porém ninguém se preocupava com seus problemas
corriqueiros não queriam nem saber dele e, muito menos da bengala. Ah! Tudo
bem, pouco me importa, o que vale é o que eu sinto, pensou ao atravessar a rua.
Passava em frente ao Parque Trianon quando parou indeciso. Entrava ou não no
parque? Por fim deu de ombros e entrou. Notou a atmosfera gostosa e refrescante
das árvores convidativas ao passeio por entre as alamedas do parque. Nisso ao
pegar uma das alamedas laterais, virando de repente, deparou com uma imensa
poça de água.
Parou. Ficou olhando para a poça com os olhos
assustados, cabisbaixos. Olhou para os lados. Não viu ninguém. Do outro lado da
poça também não havia viva alma. Um silêncio medonho desabou sobre ele
fazendo-o arcar os ombros ligeiramente. Que raios essa poça de água está
fazendo aqui atrapalhando meu passeio, perguntou-se. Olhou para traz, não, não
poderia voltar, quem volta regride no tempo e na vida, dizia sua mãe, que Deus
a tenha. Não era realmente de voltar por onde já tinha passado. Seguia essa
regra a risca, pois se voltasse estaria retrocedendo, estaria morrendo antes da
hora.
Parado, olhando a poça que cristalina refletia as folhas
das árvores sorrindo para ele. E agora, tinha noção que as plantas a sua volta
estavam perguntando. E agora o que faria? Não sabia. Precisava seguir adiante,
não podia ficar parado, tinha que continuar seu passeio com a elegante bengala
que comprara no seu aniversário. Pular. Poderia pular? Não, não poderia, se o
fizesse, mesmo que o seu pé tocasse no outro lado, escorregaria caindo dentro
da poça. Maldita poça, praguejou baixinho.
Imóvel, tremendo de raiva por sua impotência, desejou
nunca ter comprado a bengala. Se não tivesse a bengala, não teria alimentado
seu orgulho em passear como imponente cretino achando-se o tal. Quem sabe se
contornasse a poça? Nada feito. Contornar significava demonstrar que era um
perdedor. E perdedor é que ele não era. Então, como faria? Com a ponta da
bonita bengala cutucou a água que sorriu em pequenas ondas desafiando-o. Que
merda, e agora José, seu covarde, com medo de uma poça de água. Suava, tremia,
a temperatura do corpo aumentou, o estomago embrulhado produzia uma acidez que
subia até a garganta num arroto azedo.
De repente, do outro lado estava um menino que lhe
sorria. Assustou-se, não viu ele chegar. Nisso, lentamente, o menino começou a
atravessar a poça de água. Com os olhos aterrados viu os pés do garoto acima da
água, como se levitasse. Afastou-se com medo. Estava vendo o sobrenatural. Mas
em dado momento, o menino tropeçou quase caindo. Foi que viu que a poça de água
era rasa. E, quando o menino passou por ele, notou que os sapatos estavam
secos. Olhou para trás vendo-o desaparecer na curva da alameda no mesmo
instante em que lhe lançava um sorriso de deboche.
Prendendo a respiração, avançou com toda empáfia, fez
o mesmo que o menino. Levitou por cima da água e transpôs a poça.
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