sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Copos de vidro.

  

Ele estava cansado, mas não desanimado, embrulhava os copos de vidros como lhe disseram. Estava fazendo isso sem saber o motivo. Sabia que tinha que ir para algum lugar mas, o motorista, assim parecia ser lhe dissera:

- Mas antes de irmos temos que embrulhar esses copos.

E explicou como ele devia fazer, colocar o copo num jornal e embrulhar dobrando as pontas para dentro do copo e a outra em volta do copo e, assim ele fazia. Mas, era um serviço maçante que não acabava, tirava o copo de uma caixa embrulhava e colocava em outra caixa. O lugar era minúsculo, tinha tanta caixa que não dava nem para se mexer direito. Já não via mais o motorista, se é que era mesmo o motorista, olhando para as caixas veio-lhe a mente um filme que assistira. O personagem principal, um judeu, preso num campo de concentração alemã em que tinha que carregar pedras de uma lado para o outro constantemente, num enervante terror psicológico e físico que chegou num momento, não aguentando mais, se jogou contra a cerca eletrificada. Ele estava dentro de uma Kombi, se é que era uma Kombi, e não tinha certeza se a lataria da Kombi estava eletrificada, não ousou constatar tal fato. Nisso ouviu ser chamado por uma voz que não soube definir se era masculina ou feminina, apenas compreendeu que ele tinha que levar um pacote para a Secretaria da Fazenda. Pegou a encomenda e o endereço e foi. O prédio era uma edificação baixa, com uma pintura amarela desbotada, suja, precisando de uma urgente reforma. Entrou no estabelecimento deparando logo com um longo corredor, ao final se viu de frente com outro corredor, este com diversas portas a direita e a esquerda. Abriu portas, viu enormes salas, viu pequenas salas, andou por vários corredores, subiu e desceu escadas e não encontrava onde deveria entregar o pacote. Foi então que percebeu que não lhe disseram para quem entregar e nem em qual departamento. Mesmo assim, se achegou perto de uns jovens que se aboletavam numa mesa e perguntou:

- Para quem entrego isso?

Olharam para ele com olhares de quem nem está ai com o problema alheio. Um moreno enrolou um papel fazendo um canudo, dobrou no meio e entregou para ele.

- Com isso você poderá achar quem ficará com esse pacote.

Ele olhou para o canudo e pensou:

- Como vou achar com esse troço.

E andou por mais corredores estreitos, largos, curtos, longos, até que resolveu telefonar para alguém, foi quando ouvi a campainha tocar.

- Terminou seu tempo. Volte na semana que vem.

Ele se levantou, saiu batendo a porte onde se lia numa placa pendurada: Psiquiatria.

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