Ele estava cansado, mas não desanimado, embrulhava
os copos de vidros como lhe disseram. Estava fazendo isso sem saber o motivo.
Sabia que tinha que ir para algum lugar mas, o motorista, assim parecia ser lhe
dissera:
- Mas antes de irmos temos que embrulhar esses
copos.
E explicou como ele devia fazer, colocar o copo num
jornal e embrulhar dobrando as pontas para dentro do copo e a outra em volta do
copo e, assim ele fazia. Mas, era um serviço maçante que não acabava, tirava o
copo de uma caixa embrulhava e colocava em outra caixa. O lugar era minúsculo,
tinha tanta caixa que não dava nem para se mexer direito. Já não via mais o
motorista, se é que era mesmo o motorista, olhando para as caixas veio-lhe a
mente um filme que assistira. O personagem principal, um judeu, preso num campo
de concentração alemã em que tinha que carregar pedras de uma lado para o outro
constantemente, num enervante terror psicológico e físico que chegou num
momento, não aguentando mais, se jogou contra a cerca eletrificada. Ele estava
dentro de uma Kombi, se é que era uma Kombi, e não tinha certeza se a lataria
da Kombi estava eletrificada, não ousou constatar tal fato. Nisso ouviu ser
chamado por uma voz que não soube definir se era masculina ou feminina, apenas
compreendeu que ele tinha que levar um pacote para a Secretaria da Fazenda.
Pegou a encomenda e o endereço e foi. O prédio era uma edificação baixa, com
uma pintura amarela desbotada, suja, precisando de uma urgente reforma. Entrou
no estabelecimento deparando logo com um longo corredor, ao final se viu de frente
com outro corredor, este com diversas portas a direita e a esquerda. Abriu
portas, viu enormes salas, viu pequenas salas, andou por vários corredores,
subiu e desceu escadas e não encontrava onde deveria entregar o pacote. Foi
então que percebeu que não lhe disseram para quem entregar e nem em qual
departamento. Mesmo assim, se achegou perto de uns jovens que se aboletavam
numa mesa e perguntou:
- Para quem entrego isso?
Olharam para ele com olhares de quem nem está ai
com o problema alheio. Um moreno enrolou um papel fazendo um canudo, dobrou no
meio e entregou para ele.
- Com isso você poderá achar quem ficará com esse
pacote.
Ele olhou para o canudo e pensou:
- Como vou achar com esse troço.
E andou por mais corredores estreitos, largos,
curtos, longos, até que resolveu telefonar para alguém, foi quando ouvi a
campainha tocar.
- Terminou seu tempo. Volte na semana que vem.
Ele se levantou, saiu batendo a porte onde se lia
numa placa pendurada: Psiquiatria.
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