Ouvia um miado longe, distante, mal conseguindo
distinguir. Um miado meio arranhado que lentamente se aproximava até que chegou
bem perto. Olhei o rádio relógio: quatro horas da madrugada. Que saco! Fui
obrigado a levantar. Assim que abri a porta, Jhony Folgado entrou desembestado.
Troquei a ração e ele se pôs faminto a devorar a comida. Observei a esganação
do felino. Em seguida passou para a vasilha onde estava a água. Fiquei
esperando, pois assim que terminasse sabia que sairia. Dito feito. Terminou de
comer e beber se pôs feito um lorde em frente à porta como se dissesse: vamos
abre a porta para mim. Obedeci claro. Foi quando vi na lavanderia meu sobrinho
neto de quatro anos, isto é, pensei que fosse ele, mas na verdade era o filho
do meu cunhado, irmão da minha mulher. Chamei o menino: “Gustavo”, não me
respondeu. Mas como poderia ser o meu sobrinho, se ele estava com dezoito anos?
Fui até lá. Ao entrar na lavanderia não tinha ninguém. Será que estou sonhando?
Não dei pelota. Nisso escutei barulho de carro. Subi os degraus e vi o Fusca
branco, todo amassado na frente e minha mulher saindo de dentro do carro. Com
muita perícia ela estacionou o fusquinha num lugar bem exíguo que mal dava para
ela e minha filha descer do carro. Tinham ido buscar a amiga na estação,
pensei.
Voltei para dentro de casa. O gato continuava
miando. Tentava acender a luz da cozinha e não conseguia. “Calma Jhony”, vou
acender a luz depois vou te dar comida.”
Como não conseguia acender a luz, dei um murro no interruptor. De repente, eu
estava na sala gritando ou, melhor, tentando gritar: Acorde, vamos, me acorde.
E ao mesmo tempo minha boca foi se fechando, começando do lado esquerdo para o
direito. Estava me sentindo sufocado. O peito angustiado. Se eu fizer barulho
elas vão me acordar, pensei. Bati palma, bati nos móveis, e nada, ninguém
acordava. E a boca cada vez mais fechada, já estava apenas sussurrando, acorde,
me acorde, e nada. Não acordava e ninguém me acordava. De repente, como se
levasse um susto, senti o peito abrir deixando o ar entrar. Acordei suado, o
quarto no maior silencio. Suspirei aliviado, me acalmando. Olhei o rádio
relógio, eram cinco horas. Faltavam ainda uma hora para levantar. Perdi o sono,
não conseguia mais dormir. Bem feito quem manda assistir esses filmes bobos
onde a personagem, mediúnica sonha com o que vai acontecer com ela.
Nenhum comentário:
Postar um comentário