o que eu faço nessa estrutura arcaica
nessa indumentária que veste outra indumentária
mais arcaica e pior: ultrapassada
o que eu faço com esses olhos que se abrem
todos os dias involuntariamente
com esses passos sorrateiros
sem se dar conta para onde vai
passos que sobem e descem escadas
passa roletas pisa em caminhos tortos
esburacados e encharcados
que por uma deficiência de equilíbrio
tropeça e não cai
resvala em corpos estranhos
na imensidão dos desiludidos
a procura do que fazer
o que faço carregando o barco
das ilusões perdidas
que navega contra correntezas frias
lutando sem saber o motivo
como calar o que há no dentro
em palavras sem sentido
apaziguar o soturno vento
açoitando a pele árida e rugosa
quebrar os cristais da fala
que muda escorrega em delírios
secretos de ondas em pulsões vazias
passo por lugares conhecidos
olhando vendo tocando apalpando
livros e revistas e vitrines que esquisitas
me olham sem nada me dizerem do que sinto
contorno galerias imensas
cheias de ansiosas almas errantes
passarelas íngremes na tentativa
de aliviar a dor da perna
enquanto não sei a resposta
ou talvez até eu saiba qual seja
mas por um engano da natureza
não posso ou não tenha coragem
em dizê-la, vou carregando
como um molusco a sua própria casa
até que um dia da face da terra
eu desapareça
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