AS ASAS DAS LETRAS
cláudia villela de andrade
Para Osvaldo Pastorelli
Dentro daquela mochila em suas costas, poderia
ter muito treco diferente, mas não. Ali, ele guardava
suas asas. Normalmente andava a pé pelas matas do
interior. Subia e descia
montanhas, descobria cavernas, explorava florestas. As
asas eram só para burilar o mundo. Lá do alto, ele talhava,
letra por letra, a esperança. Escrevia mensagens que
amanheciam pregadas no céu. Gente havia que ao acordar,
corria lá fora para olhar a mensagem do dia. Igual como
consultar horóscopo. As janelas eram cedo escancaradas
e muitos sorrisos apareciam em caras amanhecidas e
inchadas. Olhava-se para o céu ainda com os olhos remelentos
e espremidos
por conta da claridade e os contornos brancos em forma de
pedaços de nuvens lá estavam a falarem coisas bonitas,
estímulos, conselhos, lembranças, ânimos infindos para o
povo lá debaixo.
Ele não era sagrado. Era apenas alguém que havia
descoberto a utilidade certa para as asas. Como ele não
queria se sentir um inventor de vôos, preferiu não revelar a
sua descoberta. Para muitos ele era um fantasma que escrevia
no céu coisas boas de se ler.
Quando amanhecia, ele abria sua mochila, retirava de lá
de dentro seu par de asas e subia. Assim o vento não
desmanchava rapidamente suas mensagens e o povo, ao
acordar, logo cedo, teria o que ler.
Tinha diversos apelidos: Mão de anjo, Vôo-esperto,
Pé de letra, Homem-pássaro, Poeta-voador, em cada lugar
uma alcunha diferente. Ele não ligava. Na verdade ninguém
sabia quem era ele, pois terminada a “escrevinhação”, descia
em campo deserto para ninguém saber sua identidade. Então,
guardava tudo bem direitinho na mochila surrada.
O que mais interessava era o estímulo doado. Podia ver
lá de cima os acenos e os gritos de bom-dia! Sentia-se muito
satisfeito ao ver o povo acordar bem-humorado!
Um dia, um jornal da cidade grande anunciou a existência
do homem que voava e escrevia pelos céus do interior. Veio
gente de longe para ver. Uns passaram a noite mirando em seus
binóculos e lunetas, procurando nas estrelas, nas nuvens, por todo
o espaço. Outros carregavam garruchas para acertar tiros no tal
extraterrestre. Havia criança com estilingue na mão e outras com
zarabatanas envenenadas. O povo simples, acostumado com
o feito, foi para as ruas em passeata dizer que o homem lá de
cima não era nenhum bandido, nem nada. Mas o mais forte
sempre vence e ninguém queria saber de nada. Queriam a cabeça
do homem e a fórmula da sua invenção. Onde já se viu? Uma
invenção dessas só podia ser coisa do primeiro mundo. Do inventor
do computador, de um árabe qualquer ou de um chinês.
O dia amanheceu igual. Era Primavera. Pólen no ar. Em
todas as casas a fumaça do fogão de lenha saia pela chaminé.
Cheiro de café coado no pano de saco. Pãozinho quente com
manteiga. A criançada se arrumando para a escola e as janelas se
abrindo para o sol. Pela clarabóia, muitos já liam os dizeres do
céu e os sorrisos se alargavam em bocas de todo
tamanho. As cabeças assentiam. Uns cumprimentavam os
outros numa eterna conformação de vida com muita alegria.
Mas um grande estrondo se ouviu e, rodando feito pião, a
caça caiu lá cima, estalando-se inteira no chão.
Era um homem como outro qualquer, sem asas, sem nada
que justificasse aquela agressão. Um homem e sua mochila
surrada. Naquela correria de descobrir-se o tal invento, alguém
abriu sua mochila e de dentro retirou um cotoco de sabonete,
uma escova de dente, um pente, três cuecas, dois pares
de meias furadas, uma camisa
velha desbotada,
uma pena dourada e... um livro de poesia. Mais nada.
Nenhum comentário:
Postar um comentário