sábado, 24 de maio de 2025

AS ASAS DAS LETRAS

 AS ASAS DAS LETRAS

 

cláudia villela de andrade

 

 

Para Osvaldo Pastorelli

 

 

 

Dentro daquela mochila em suas costas, poderia

ter muito treco diferente, mas não. Ali, ele guardava

suas asas. Normalmente andava a pé pelas matas do

interior. Subia e descia

montanhas, descobria cavernas, explorava florestas. As

asas eram só para burilar o mundo. Lá do alto, ele talhava,

letra por letra, a esperança. Escrevia mensagens que

amanheciam pregadas no céu. Gente havia que ao acordar,

corria lá fora para olhar a mensagem do dia. Igual como

consultar horóscopo. As janelas eram cedo escancaradas

e muitos sorrisos apareciam em caras amanhecidas e

inchadas. Olhava-se para o céu ainda com os olhos remelentos

e espremidos

por conta da claridade e os contornos brancos em forma de

pedaços de nuvens lá estavam a falarem coisas bonitas,

estímulos, conselhos, lembranças, ânimos infindos para o

povo lá debaixo.

                 

Ele não era sagrado. Era apenas alguém que havia

descoberto a utilidade certa para as asas. Como ele não

queria se sentir um inventor de vôos, preferiu não revelar a

sua descoberta. Para muitos ele era um fantasma que escrevia

no céu coisas boas de se ler.

                 

Quando amanhecia, ele abria sua mochila, retirava de lá

de dentro seu par de asas e subia. Assim o vento não

desmanchava rapidamente suas mensagens e o povo, ao

acordar, logo cedo, teria o que ler.

                  

Tinha diversos apelidos: Mão de anjo, Vôo-esperto,

Pé de letra, Homem-pássaro, Poeta-voador, em cada lugar

uma alcunha diferente. Ele não ligava. Na verdade ninguém

sabia quem era ele, pois terminada a “escrevinhação”, descia

em campo deserto para ninguém saber sua identidade. Então,

guardava tudo bem direitinho na mochila surrada.

                 

O que mais interessava era o estímulo doado. Podia ver

lá de cima os acenos e os gritos de bom-dia! Sentia-se muito

satisfeito ao ver o povo acordar bem-humorado!

 

                 

Um dia, um jornal da cidade grande anunciou a existência

do homem que voava e escrevia pelos céus do interior. Veio

gente de longe para ver. Uns passaram a noite mirando em seus

binóculos e lunetas, procurando nas estrelas, nas nuvens, por todo

o espaço. Outros carregavam garruchas para acertar tiros no tal

extraterrestre. Havia criança com estilingue na mão e outras com

zarabatanas envenenadas. O povo simples, acostumado com

o feito, foi para as ruas em passeata dizer que o homem lá de

cima não era nenhum bandido, nem nada. Mas o mais forte

sempre vence e ninguém queria saber de nada. Queriam a cabeça

do homem e a fórmula da sua invenção. Onde já se viu? Uma

invenção dessas só podia ser coisa do primeiro mundo. Do inventor

do computador, de um árabe qualquer ou de um chinês.

                 

O dia amanheceu igual. Era Primavera. Pólen no ar.  Em

todas as casas a fumaça do fogão de lenha saia pela chaminé.

Cheiro de café coado no pano de saco. Pãozinho quente com

manteiga. A criançada se arrumando para a escola e as janelas se

abrindo para o sol. Pela clarabóia, muitos já liam os dizeres do

céu e os sorrisos se alargavam em bocas de todo

tamanho. As cabeças assentiam. Uns cumprimentavam os

outros numa eterna conformação de vida com muita alegria.

Mas um grande estrondo se ouviu e, rodando feito pião, a

caça caiu lá cima, estalando-se inteira no chão.

                 

Era um homem como outro qualquer, sem asas, sem nada

que justificasse aquela agressão. Um homem e sua mochila

surrada. Naquela correria de descobrir-se o tal invento, alguém

abriu sua mochila e de dentro retirou um cotoco de sabonete,

uma escova de dente, um pente, três cuecas, dois pares

de meias furadas,  uma camisa velha desbotada,

uma pena dourada e... um livro de poesia.  Mais nada.

 

 

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