sexta-feira, 13 de junho de 2025

com um dente só


Ele sorria — autêntico, sempre. Sorria com um único dente.

Não era louco. Não havia tristeza no rosto que revelasse loucura. Era fiel a si mesmo, e disso tinha plena consciência. Talvez, no passado, tenha sido outro. Mas agora, com a expressão impregnada de silêncio, o rosto nada dizia. Apenas existia.

E existir, por si, já era um espanto.

Sorriu com aquele dente solitário ao ver o mar pela primeira vez. Encantou-se com o som das ondas, o cheiro da areia, a brisa salgada que lhe umedecia os lábios. Passou as mãos nos cabelos ralos. Um sorriso nasceu ali — úmido, salgado, cheio de infância esquecida.

Então, apertou-lhe o peito a saudade do pai.

Morrera no mesmo dia em que perdera o dente. Simplesmente caiu. O dente e o pai.

Naquela noite, após o enterro, tomou uma dose dupla de uísque com café e dois cubos de gelo. A culpa arranhou-lhe os olhos. Respirou fundo, puxando o ar como quem tenta arrancar o peso do peito. Mas seguiu. Não parou.

Descobriu, nesse dia, que a morte não o assustava.

Correu para o banheiro, excitado, como quem reencontra a vida no impulso. O som do chuveiro preencheu a casa vazia. Enrolado numa toalha, jogou-se na cama ainda molhado. Dormiu a noite, a madrugada e o dia inteiro.

Ao acordar, foi ao espelho.

Estava sem o dente.

Não acreditou.

— Porra. — murmurou.

— Merda. — disse mais alto.

A ausência do dente era mais profunda que a do pai. O dente estivera sempre com ele. O pai, não.

Mesmo presente, o pai era ausência. Era dos outros — das viagens, dos negócios, das pescarias, do futebol, das amantes. Nunca dele.

Eram só os dois. Depois da partida da mãe e dos irmãos, restaram ele e o pai.

Foi então que percebeu: estava ficando sem dentes.

Não se importava. Não.

Caíam, e ele mal notava.

Solteiro por necessidade, não se constrangia. A timidez o protegia das complicações — sobretudo as matrimoniais. Fazia o essencial. Para o resto, contratara uma empregada.

Vinha uma vez por mês. Saciava as necessidades em geral.

Ela ganhava por isso. Não reclamava.

Assim se desenrolava sua vida — pacífica, contida, um fio de água entre pedras.

Até que o pai se foi.

E lhe restou apenas um dente.

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