Abri a porta e me senti feliz por estar de volta. Aliás, toda vez que saio
e retorno, ao girar a chave e ver minhas coisas em seus lugares, agradeço. Hoje
não foi diferente. Nada como estar no próprio cubículo — por menor que seja, é meu.
Você concorda, não é? Tem que concordar, afinal, você é eu, e eu sou você.
E ainda assim, isso não deixa de ser fundamental, não é mesmo? Estar aqui,
fazendo o que o meu eu interior deseja — não há preço. Ainda mais com você como
companhia.
Sim, eu posso até concordar com você. Mas, se você fosse outro eu,
diferente de mim — de mim que aqui escreve — talvez fosse ainda melhor. Eu
diria até que seria excelente. Mas há algo que você não considerou.
— O quê?
— Se você tivesse outro como companhia, e esse outro não fosse o seu eu,
talvez eu nem existisse.
— Sim, entendo. Mas você existiria, apenas não com essa presença constante.
— Compreendo. Eu seria relegado ao segundo plano.
— Mas não leve isso tão a sério. Em algum momento da vida, estarei sempre
em busca de mim mesmo — de você.
— Tá certo. Então, se algo acontecer com esse "outro eu", eu
estarei aqui, conversando com você de novo, certo?
— Exato. Nada de segundo plano por enquanto. Não sabemos como será a convivência
com esse outro. Se for amigável, quem sabe... você pode descansar um pouco. Mas
se for turbulenta, então você, meu caro, volta ao centro do palco.
— Isso me anima. Mas, por favor, nada de precipitar as coisas. Deixemos o
barco correr. Veremos o que acontece.
— Combinado.
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