quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Nada dura para sempre.


Augusto parou no meio fio da calçada. Enfiou a mão no bolso e retirou o maço de cigarro. Colocou um nos lábios e quando levou o isqueiro para acender, um carro parou bem a sua frente. Assustado, interrompeu o gesto. Quem seria? Sacudiu os ombros, evidentemente não era com ele, e ao se virar para se afastar a janela do passageiro foi abaixada e dentro do carro ouviu uma voz forte dizer:
- Quanto é?
Como? Quanto é o que? Inclinou o corpo na intenção de ver quem era, no entanto o rosto estava na sombra, não conseguiu distinguir direito e, ao mesmo tempo o cara perguntou de novo.
- Quanto é?
- Mil reais.
- Faz tudo?
Quando tentou responder, foi violentamente puxado para traz caindo sentado no meio da calçada. E logo em seguida um sujeito alto começou a chutá-lo desnorteadamente. Augusto com os braços protegeu o rosto, mas não pode evitar chutes no corpo, nas pernas, nas costas, não tinha como reagir. Nisso ouviu um grito:
- Gino, pare.
Foi o bastante para o agressor se distrair e Augusto ter a oportunidade de se levantar.
- Vou te matar, seu merda. Roubando meu ponto. Roubando meu cliente.
E avançou para cima de Augusto que procurou ficar o mais longe possível. Gino tentava se aproximar gritando palavrões, até que Gabriel se interpôs entre eles.
- Gino, pare, por favor.
- Não se meta, Gabriel. Esse filho da puta estava roubando meu ponto.
- Gino, pare. Olhe os policiais se aproximando.
Numa rapidez estupenda, Gino mudou de comportamento.
- O que está acontecendo aqui?
Perguntou um dos policiais.
- Nada não.
Respondeu Gino ao mesmo tempo em que passava o braço pela cintura de Augusto.
- Apenas briguinha de namorado, não é amor?
- Amor! Agora sou amor, né, malandro.
Disse Augusto agressivo. E ao sentir a quentura de Gino em seu corpo foi tomado por uma náusea e o hálito úmido fazendo cocega em seu pescoço o deixou enojado.
- Acho bom, mesmo. Vão andando, não quero ver ninguém aqui. Circulando rapaziada se não querem ir para a cadeia.
- Vamos sim, seu guarda. Vamos amor que em casa vou lhe dar um corretivo para acalmar essa sua ciumeira.
E puxou Augusto que não teve alternativa a não ser ceder. Assim que dobraram a esquina, que não estavam mais sendo observados, Gino deu um empurrão em Augusto que bateu as costas no muro.
- Suma daqui filho da puta, não quero te ver mais.
E atravessou a rua ganhando o anonimato da escuridão. Augusto sacudiu o corpo, passou a mão pela camisa e calça como se tirasse a impregnação do contato de Gino. Viu que os policiais tinham ido embora, voltou ao local. Andou de um lado para o outro. Retornou à esquina quando viu Gabriel entrando no prédio. O alcançou antes de fechar a porta.
- Espere. Quero falar com você.
Gabriel voltou o corpo e pegando o pelo braço, puxou Augusto para dentro e encostando-o a parede. Olhou bem em seus olhos e o beijou sofregamente. Tomado de surpresa, Augusto não soube agir, mas logo em seguida se entregou aos beijos. Sentiu a língua de Gabriel pedindo passagem, não ofereceu resistência, deixou que as línguas se encontrassem num frenesi louco. Nisso a porta do elevador se abriu. Se separaram, no entanto, não saiu ninguém. Gabriel puxando-o pela mão disse:
- Venha.
Entraram no elevador e continuaram se beijando.
- Gabriel...
- O que?
- A câmera...
- Que se foda...
E se beijando saíram do elevador e entraram no apartamento. A luz da lua pela janela sem cortina iluminava o sofá onde eles se jogaram. E na iluminação natural Augusto sentia o peso do corpo de Gabriel que com a maior destreza beijava devagar o peito liso de Augusto ao mesmo tempo em que, botão por botão, abria a camisa cinza claro. E cada botão aberto, era um beijo. Ao chegar no último, Gabriel puxou a camisa de dentro da calça e deparou com o umbigo redondo, bonito, meio salgado, um pouco úmido pelo suor e, ali, se demorou lambendo, chupando, beijando de leve, mordendo provocando em Augusto pequenos gemidos. Como gostava de umbigo, se entregava todo para lamber, beijar e, assim ficou até que o companheiro pegou seu rosto e o puxou para cima colando novamente seus lábios nos lábios de Gabriel. Este com olhar cinza prata, silencioso pedia ou, melhor dizia:
- Agora é a sua vez, Augusto.
Ao que Augusto obedeceu fazendo o mesmo, a cada botão aberto beijava a pele morena de Gabriel e, nesse instante parou ao notar a tatuagem logo abaixo do mamilo esquerdo.
- Você tem uma tatuagem?
- Sim. Mas agora não é hora de se falar em tatuagem.
- Está bem.
Gabriel tinha uma pele sedosa, suave, cheirosa, amorenada que se arrepiava aos beijos de Augusto. Movimentando-se devagar, Gabriel se sentou na beira do sofá e puxou Augusto que ficou em pé a sua frente. Augusto não era muito alto, talvez um metro e setenta, magro, uma barriga que já começava a ter uma pequena saliência, mas de uma beleza na qual Gabriel se embriagava. E naquele momento, deliberadamente se entregou ao baixar o zíper da calça de Augusto deixando à mostra o volume por debaixo da cueca vermelha. Ao passar a mão de leve, sentiu a pulsação quente das veias entumecendo a pele. Após lamber a cueca deixando-a úmida, Gabriel vagarosamente puxou o pênis que, sentindo-se livre, saltou para fora. Mordeu de leve o lábio inferior demonstrando satisfação ao ver o pênis do companheiro. Olhou com brilho nos olhos investigando cada milímetro ao mesmo tempo em que o tocava. Sentiu a quentura doce queimando a palma da mão. Saboreou cada instante, as veias, a pele suave, o vai e vem cobrindo e descobrindo a cabeça lisa e vermelha e, na aproximação do orgasmo, percebeu que, o que estava fazendo ia mudar sua vida, isso tinha certeza. Poderia confiar em Augusto? Perguntou mentalmente, no entanto uma parte do seu corpo dizia não, não deveria ter cedido ao desejo, estava sendo injusto, tanto com ele, como com Augusto.
- Não me leve a mal, mas acho melhor você ir embora, Augusto.
Disse numa voz baixa e melancólica afastando o parceiro.  
- Não é nada com você, apenas estamos fazendo a coisa errada.
- Você está enganado, Gabriel. É o que eu quero e sei que você também quer.
Augusto desapontado, tentou mudar a decisão de Gabriel, mas não foi vitorioso, quando Gabriel colocava uma decisão na mente, raramente voltava atrás.
- Você até pode estar com a razão, talvez, mas não agora, quem sabe outro dia, outra hora.
O que Augusto não sabia e, provavelmente nem viesse a saber, é que Gabriel estava numa desordem mental, não podia falar nada, o que tinha que fazer era tirá-lo da frente dele e não estragar tudo. Por isso, com muita insistência convenceu o amante a ir embora. Mas, ao acender a luz, Augusto viu Theus em cima da mesinha. Pegou o livro foleou e olhando para Gabriel disse:
- Você tem o mesmo nome do personagem...
- Sim.
- Tatuou o nome no peito também.
- Sim.
- Não vejo tanto significado para isso.
- O que? Está de brincadeira?
- Parafraseando o Leonardo: “Não gostei, mas tem citações legais no discurso dos amigos psicólogos”, aliás acho o ponto alto do livro.
Gabriel se vestindo, olhou para Augusto com cara de desaprovação.
- Você está realmente de brincadeira comigo, não pode ser.
- Não, estou falando a verdade, não gostei mesmo.
Disse Augusto meio que irônico.
- Uma história tocante, sofrida, me vi na pele do personagem, para mim é o melhor livro que já li.
- Tudo bem, é o mais vendido do autor, o que acho estranho é que não encontrei uma crítica que apontasse os erros e os acertos, só vi elogios e badalação a uma história simples, sem muita profundidade, uma história linear.
- Linear? O que você quer dizer com isso.
Gabriel começava a se enfezar com Augusto.
- O que eu quero dizer é uma história sem clímax, sem aquele sufoco que te deixa o peito arfando querendo saber o que vai acontecer na página seguinte.
- É um romance, um drama, não policial, de mistério. Olha acho melhor ir embora...
- Sim, mas é emoção fraca apenas para capturar o leitor, coisa que o autor faz bem. Talvez, aí que está o ponto forte do livro. Numa linguagem transparente ele nos mostra as várias facetas dos problemas que o herói tem que passar, desde a traição, passando pela não aceitação e filosofia de que nada dura para sempre. Vendo por essa perspectiva dou dez para o livro, mas no geral não me agradou.
- Augusto acho melhor ir embora, não quero brigar com você.
Gabriel desgostoso empurrava Augusto para fora do apartamento.
- Não acredito que vai brigar comigo só porque discordo de você!
- Vou sim. O livro é excepcional, com os códigos...
- Sabe que não dei importância a esses códigos, claro fiquei curioso, mas não procurei descodificar os códigos de cada página. É outro ponto forte do livro, o leitor fica curioso em saber o que é esses números.
- Tchau, Augusto.
E empurrou o amigo para dentro do elevador que fechou a porta e começou a descer. E ao entrar no apartamento pegou um envelope e abriu. Olhou a data e mentalmente disse:
- Tenho quinze dias para me preparar.
Nisso ao erguer os olhos e olhar pela janela viu Augusto no meio da rua indeciso, não sabia se ia embora ou se voltava, até que se decidiu voltar. Augusto ao sair do elevador encontrou a porta do apartamento aberta. Entrou e não viu Gabriel. Pegou um papel e uma caneta e deixou um bilhete:

Querido Gabriel

Seu bobo. Não percebeu que eu estava sendo irônico.
Claro que gostei do livro, tanto é que estou levando emprestado, vou reler.
Daqui a quatro meses eu devolvo.
Está bem?
Beijos

Augusto.

Gabriel leu e disse baixinho:
- Daqui a quatro meses não estarei mais aqui.

Meses depois...

A campainha num som leve encontro-o revisando o trabalho que teria de ser entregue no fim de semana. A contragosto abriu a porta e se surpreendeu ao ver quem o perturbava.
- Augusto!
- Olá. Tudo bem?
- Sim, mas o que faz aqui?
- Não me convida para entrar?
- Entre.
Disse demonstrando irritação. Augusto entrou e se virou para ele e o abraçou. Gabriel não correspondeu ao abraço.
- Puxa que frieza! Não está contente em me ver.
- Não... sim... não é isso... é que...
Gaguejando demonstrava desconforto ao ver o amigo.
- Ah! Aqui está Theus, prometi e estou devolvendo.
- Obrigado. Como me encontrou?
- Sabe que você tem amigo que é apaixonado por você.
- Marciel...
- Querendo se esconder, fugir do destino, do amor...
- Esconder... destino e amor não acredito...
- Você... nós podemos sermos felizes, acredite.
- Nós!
- Sim, nós, pois assim que te vi me apaixonei.
Augusto disse se aproximando de Gabriel que não disfarçou o embaraço à sua aproximação. Gaguejando respondeu:
- Eu também... me apaixonei por você, mas não podemos...
- O que não podemos? Nos amarmos, sermos felizes?
- Sim.
Gabriel se sentia desconfortável ao afirmar isso. Queria que Augusto esquecesse dele.
- Só por causa de uma simples operação?
- Simples operação? Para você é tudo simples, não é.
- Olha entendo o que você tem medo...
- E o que eu tenho medo.
Gabriel quase gritou se afastando do amigo.
- O medo de que ninguém mais possa te amar por não ter mais ereção.
- Bom... se fosse contrário eu pensaria muito...
- Bobo, te amo como você é com ereção ou sem ereção, há amor que não necessita de penetração.
- Talvez, tenha razão, mas vou sempre ficar encucado...
- Podemos tentar, o que acha?
- Sim.
E dois corpos se tornaram um só a partir daquele momento.

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