domingo, 9 de fevereiro de 2020

Rádio 9

O dia estava cinzento, parecendo ou não que iria chover, entrei no restaurante e sentei numa das mesas. O garçom veio e perguntou:
- O que deseja, senhor?
Desejo que vá tomar no teu cu, pensei, mas  o coitado está ali a trabalho e como eu deve ter preocupações, não tem culpa das minhas.
- Uma cerveja e uma caipirinha por favor.
Notei seu corpo se afastando. Magro, não muito alto, ombros poucos largos, uma bunda atraente, calça preta e uma camisa branca, salientava sua figura masculina. Apesar da hora, o restaurante estava com movimento intenso, poucos sentados à mesa, além de mim, uns dois ou três, notei que o garçom se postava ao lado esquerdo da porta visualizando todo o movimento. Talvez fosse o gerente, ou atendia a parte onde eu estava, já que as pessoas a mesa estavam nessa parte do restaurante e, a maioria, ou quase todos tomavam o seu café da manhã em encostado ao balcão, quem sabe, antes de irem trabalhar, antes de entrar na prisão de todos os dias. Fiquei observando. Talvez impressão minha ou não, tive o pressentimento de ser observado pelo garçom. Fiz com que notasse o meu desinteresse por ele, o que deu resultado, veio a minha mesa duas vezes perguntar se queria mais alguma coisa, na quarta vez respondi:
- Quero que sente aqui comigo.
Sorriu mostrando uns dentes brancos bem alinhados numa boca de lábios sedentos e carnudos.
- Desculpe, senhor, mas não posso.
- Eu sei que deseja minha companhia assim como quero a sua.
Sorriu outra vez como se estivesse despreocupado, como se estivesse em outro lugar e não no seu ambiente de trabalho. Olhou para os lados, se abaixou e disse numa voz de arrepiar os cabelos do cão.
- Saio daqui a uma hora.
E se afastou. Quando voltou trazia uma cerveja que colocou na mesa e, disfarçadamente me passou um papel.
- Brinde da casa, senhor.
E voltou ao seu posto de observação. Desdobrei o papel. Numa letra quase corrida, talvez por causa da pressa, estava escrito:
 “Daqui a uma hora me espere em frente, na praça.”
Dobrei o papel e guardei no bolso. Acabei a cerveja e a caipirinha, pedi a conta, e ao receber o troco, nossos dedos se tocaram por breve segundo. Sai e me encaminhei para a praça. Acendi um cigarro. Não levou nem meia hora ele chegou.
- Ué, saiu mais cedo?
- O movimento estava fraco, o chefe me mandou embora.
- Melhor para nós.
- Sim.
E nos abraçamos.

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