Fecha-se
a noite sobre mim arrepiando a pele. Devia fazer alguma coisa, meu caro.
Acontece que faço e não tem mais importância saber o que faço ou deixo de
fazer. Sua cavernosidade não me fascina mais. Pôr o lixo na rua não é agora da
minha competência e não adianta o seu blá blá blá, estará falando para as
paredes. Os vizinhos reclamam da música alta? É bom saber ou melhor, não quero
saber. Louco eu? Baboseira? Hora! Meu Deus, como é que pode ser baboseira? O
caso é que essa baboseira é rock, entende, rock. Recuso ouvir. Vou para
cozinha. Espremo limão com açúcar, adiciono cachaça e cubos de gelo. Bato na
coqueteleira e despejo no copo. Sento no banco do jardim. Estico as pernas na
jardineira. Os mosquitos e pernilongos fogem. A noite chega e não me surpreende.
Deveria sair em definitivo, digo às rosas. "As rosas não falam,
simplesmente exalam o perfume que roubam de ti" . Grande Cartola, entendia
do recado. O gato mia roçando minhas pernas. Pula no meu colo. Dizem que os
gatos sente o que se passa com seu dono. Será? Duvido, digo levantando-me. Não
sou seu dono. O coitado pula para o chão miando. Abaixo zíper. Rego as plantas.
Visualizo uma boca enorme. Grande. Descomunal. O prazer enrijece o membro.
Fecho o zíper. Com isso a boca desaparece. Merda não pertenço a esse lugar. E o
que eu faço aqui? Dois meses depois vou embora.
segunda-feira, 30 de março de 2020
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