O
corpo estirado na cama do hotel barato me espera. A espera de novo. A maldita
espera sempre. O pensamento resvala nos contornos do corpo à procura de nos
atos purificar-se. Há a dificuldade em controlar os desejos e anseios
desenfreados dos atos. Ele não se importa de mais uma vez ficar à espera,
se se importasse, creio eu, já teria ido embora. Porra, não tem como
fazer as coisas certas, tem? Contorço- me, pelo menos numa tentativa fracassada
em fazer a coisa certa. Não tem como! Existe no pequeno ato de urinar uma
tristeza em ser o que apenas quero e não ter o poder de transformação.
Como a canção em rotação melosa em um romantismo às avessas, feito algo de
decepção que não consigo evitar. O que devo fazer? Talvez nada. Porque isso
tudo não depende de mim. Existe uma série de agravantes que se acumulam
no dia-a-dia que vem junto com pessoas que nos rodeiam e que nos amam e que
amamos. Um pingo de urina fica na borda da bacia. Acho graça. O que dirá
a pessoa que vier limpar ao ver o pingo de urina, os lençóis amarfanhados, camisinha
no lixo, toalhas molhadas... Talvez nada, sua necessidade financeira lhe toma o
tempo com pensamentos individualistas de sobrevivência. Ao abrir a porta do
banheiro, um sorriso, creio que indagador, deixa- me envergonhado e antes que
reformule a pergunta embaraçosa, jogo- me na cama ao seu lado e beijo seu
rosto. Num abraço afundamos um no outro ouvindo a voz do Chico Buarque ao
longe falando em palavras. Palavras! No momento onde o sons se misturam
num amálgama de vozes, fala, gemidos, portas batendo,
televisão, choro, não há necessidade de palavras. O corredor vazio deixa
o som mais nítido. Deixa meus nervos fracos na ansiedade em ser do que em
ter. Percorro o corredor e assustado vejo que estou nu. Volto para o quarto e o
encontro vazio.
sábado, 28 de março de 2020
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