sábado, 28 de março de 2020

Rádio 5


O corpo estirado na cama do hotel barato me espera. A espera de novo. A maldita espera sempre. O pensamento resvala nos contornos do corpo à procura de nos atos purificar-se. Há a dificuldade em controlar os desejos e anseios desenfreados dos atos. Ele não se importa de mais uma vez ficar à espera,  se se importasse, creio eu, já teria ido embora​. Porra,  não tem como fazer as coisas certas, tem? Contorço- me, pelo menos numa tentativa fracassada em fazer a coisa certa. Não tem como!  Existe no pequeno ato de urinar uma tristeza em ser o que apenas quero e não ter o poder de transformação.  Como a canção em rotação melosa em um romantismo às avessas, feito algo de decepção que não consigo evitar. O que devo fazer? Talvez nada. Porque isso tudo não depende de mim.  Existe uma série de agravantes que se acumulam no dia-a-dia que vem junto com pessoas que nos rodeiam e que nos amam e que amamos.  Um pingo de urina fica na borda da bacia. Acho graça. O que dirá a pessoa que vier limpar ao ver o pingo de urina, os lençóis amarfanhados, camisinha no lixo, toalhas molhadas... Talvez nada, sua necessidade financeira lhe toma o tempo com pensamentos individualistas de sobrevivência. Ao abrir a porta do banheiro, um sorriso, creio que indagador, deixa- me envergonhado e antes que reformule a pergunta embaraçosa, jogo- me na cama ao seu lado e beijo seu rosto.  Num abraço afundamos um no outro ouvindo a voz do Chico Buarque ao longe falando em palavras. Palavras! No momento onde o sons se misturam num  amálgama de vozes, fala,  gemidos,  portas batendo, televisão, choro, não há necessidade de palavras.  O corredor vazio deixa o som mais nítido.  Deixa meus nervos fracos na ansiedade em ser do que em ter. Percorro o corredor e assustado vejo que estou nu. Volto para o quarto e o encontro vazio.

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