domingo, 5 de abril de 2020

Contos surrealistas 168


O ato.

As coisas acontecem porque tem que acontecer ou desejamos que aconteçam, e quando damos conta somos levados pelo emocional. Como se dizia foi o diabo e, ali representado por aquela mão macia, que segurava com delicadeza, mas firme mostrando o quanto de prazeroso estava sendo e determinado a ir até o fim, só podia ser o diabo mesmo. No entanto, não se sobressaltou, não fez nenhum gesto de repulsa ou alguma tentativa em retirar a mão macia e ousada, como tudo o que é perigoso nos atrai, queria ver no que aquilo daria. Lentamente num ritmo adequado, a mão subia e descia fazendo com que expressasse o prazer em gemidos, ora prolongados, ora em curtos grunhidos monossilábicos. Nunca imaginou um dia passar por essa experiência. Percebia que estava caindo numa armadilha perigosa, e como todo e qualquer perigo e, mais ainda se for uma armadilha era convidativo a se aventurar. E aventureiro se entregava sem ao menos pensar ou avaliar as consequências. Na concepção viril que o seu corpo forte, alto, não muito musculoso demonstrava, reconhecia-se nunca ter apreciado uma experiência tão prazerosa como estava tendo. E porque se entregava a ela? Curiosidade? Talvez. Tédio? Talvez. Procura de aventura? Talvez. Não tinha uma resposta, quer dizer, tinha sim uma resposta, apenas não queria acreditar, ou melhor, dizendo, não queria aceitar. Percebia um desligamento de tudo, da vida, dos problemas, do mundo, parecia que estava em outra esfera, que se pudesse prolongaria o ato tanto quanto fosse possível. Será que o que pensava sobre ele não é o que pensava que fosse? O que acreditava era errado? Quer dizer não errado, mas para ele era. Poderia alguém entender o que não entendia? Não devia se preocupar não nesse momento, quem sabe mais tarde, no dia seguinte. O que a razão e a emoção lhe dizia é que deveria aproveitar e curtir os instantes. E era o que fazia. O futuro era incógnito a ser desvendado. Não podemos resolver os problemas antecipadamente. E assim se entregou ao prazer, relaxou os músculos, se entregou àquela mão que era um diabo.  

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...