sábado, 4 de abril de 2020

Contos surrealistas 169


Calma.


Tudo nessa vida tem a primeira vez, era o que lhe dizia a filosofa da sua mãe, que Deus a tenha. Angustiado por ser exposto a um vexame, ou talvez, a um ato forçado que revelava todo o seu acanhamento, não sabia como agir, apesar de ter ouvido:
Não se preocupe. Não precisa fazer nada. Tudo bem?
Gaguejando respondeu timidamente:
Tu... Tudo bem...
Suava, tremia, não sabia onde depositar o olhar. Cabisbaixo apenas esperava que ela lhe dissesse o que fazer. E ao ouvir:
Tire a roupa.
O coração disparou, a face vermelha queimava a pele branca. Titubou indeciso sem saber se virava as costas ou não ao começar lentamente a desabotoar a camisa.
Não precisa ter pressa, vamos com calma, tudo bem, temos bastante tempo.
Si... Sim... Co... Calma, respondeu envergonhado.
Com calma! Como se desde que chegara só ouvia isso: “Com calma” aqui “Com calma” ali, calma, calma, droga!
Completamente nu recuou a aproximação dela.
Vista isso com a abertura para trás e amarre dando um laço. Depois se deite na maca.
Fez o que a enfermeira mandou e ouviu a voz do anestesista:
Estique o braço. Não se preocupe, é a sua primeira operação. Vou te aplicar uma injeção e você vai dormir...
Não ouviu mais nada.

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