quinta-feira, 2 de abril de 2020

Contos surrealistas 171


Renovação.


Olhou-se no espelho. Não era nem magro e nem definido. Tinha o corpo na proporção certa. Podia se dizer que algo o preocupava, mas compreendia que não deveria se abater. Passou lentamente a mão pelo peito liso descendo até o sexo. Introduziu os dedos entre as coxas acariciando os testículos cujos pelos se eriçaram. Uma pequena ereção se formou ao contato da própria pele. Abruptamente fechou a porta do espelho e entrou no banheiro. Tomou um banho de quarenta e cinco minutos.
Uma hora depois estava encostado no balcão da boate saboreando uma cerveja. A movimentação era constante. O som alto. A pista estava cheia. Nisso ao virar o rosto para o lado percebeu dois olhos fitando-o. Não se importou. Acabou a bebida e se dirigiu para a pista de dança. Entregou-se à batida acelerada da música freneticamente. Aos poucos foi se sentindo leve, seus braços e pernas não o obedeciam, era tocado por mãos desconhecidas, empurrado, às vezes abraçado, os audaciosos acariciavam seu sexo por cima da calça ou era beijado. Nada o importunava. Queria dançar apenas. Num dado momento viu o rapaz que o fitava agora a pouco a sua frente, foi instantâneo, retribuiu o sorriso, mas no instante seguinte não estava mais a sua frente. Procurou com os olhos num giro lento e não encontrou. Saiu da pista.
 Encostado novamente ao balcão tomava lentamente a cerveja. Gostava de observar a movimentação. Eram homens de todos os tipos, coroas, magros, gordos, jovens, mulatos, afeminados com suas exuberâncias exageradas, travestis, uns somente com short bem curto, outros de terno, mascarados com o rosto pintado, todos a procura de diversão ou apenas estavam ali por estar como ele. De repente, a poucos metros dele estava o rapaz que o encarava. Olhando um para o outro sorrindo. Não se mexeu. Queria que o rapaz tomasse a iniciativa, mas nisso surge um bando de homens rindo e falando alto se interpondo entre eles. Quando eles passam não vê mais o rapaz.
Paga a cerveja e resolve ir embora. Já estava quase na saída quando é puxado para traz e seus lábios colam a outros lábios. Uma onda silenciosa o invade. Mesmo com os olhos fechados sabe que é o rapaz que o paquerava. Ao mesmo tempo um pedaço de papel é posto em sua mão. Enfia no bolso da calça.
No aconchego do apartamento, abre o papel com um número de celular e embaixo um nome: Anjo. Ao ligar ouve uma voz melodiosa dizer:
- Já estou indo.
Assim que desliga ouve um farfalhar de asas e a campainha toca. Abre a porta. Anjo o empurra para dentro dando lhe um beijo apaixonado.
No dia seguinte deitado no peito dele, Anjo lhe diz:
- Obrigado, você me salvou, e duas lágrimas escorem pela sua face.
E desaparece lentamente. Ele sorri feliz e abre o papel em sua mão e vê o número do seu celular e embaixo um nome: Anjo. Vira para o outro lado e continua dormindo.

Em algum canto da cidade uma criança chora ao nascer.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...