Renovação.
Olhou-se
no espelho. Não era nem magro e nem definido. Tinha o corpo na proporção certa.
Podia se dizer que algo o preocupava, mas compreendia que não deveria se
abater. Passou lentamente a mão pelo peito liso descendo até o sexo. Introduziu
os dedos entre as coxas acariciando os testículos cujos pelos se eriçaram. Uma
pequena ereção se formou ao contato da própria pele. Abruptamente fechou a
porta do espelho e entrou no banheiro. Tomou um banho de quarenta e cinco
minutos.
Uma
hora depois estava encostado no balcão da boate saboreando uma cerveja. A
movimentação era constante. O som alto. A pista estava cheia. Nisso ao virar o
rosto para o lado percebeu dois olhos fitando-o. Não se importou. Acabou a
bebida e se dirigiu para a pista de dança. Entregou-se à batida acelerada da
música freneticamente. Aos poucos foi se sentindo leve, seus braços e pernas
não o obedeciam, era tocado por mãos desconhecidas, empurrado, às vezes
abraçado, os audaciosos acariciavam seu sexo por cima da calça ou era beijado.
Nada o importunava. Queria dançar apenas. Num dado momento viu o rapaz que o
fitava agora a pouco a sua frente, foi instantâneo, retribuiu o sorriso, mas no
instante seguinte não estava mais a sua frente. Procurou com os olhos num giro
lento e não encontrou. Saiu da pista.
Encostado novamente ao balcão tomava
lentamente a cerveja. Gostava de observar a movimentação. Eram homens de todos
os tipos, coroas, magros, gordos, jovens, mulatos, afeminados com suas
exuberâncias exageradas, travestis, uns somente com short bem curto, outros de
terno, mascarados com o rosto pintado, todos a procura de diversão ou apenas
estavam ali por estar como ele. De repente, a poucos metros dele estava o rapaz
que o encarava. Olhando um para o outro sorrindo. Não se mexeu. Queria que o
rapaz tomasse a iniciativa, mas nisso surge um bando de homens rindo e falando
alto se interpondo entre eles. Quando eles passam não vê mais o rapaz.
Paga
a cerveja e resolve ir embora. Já estava quase na saída quando é puxado para
traz e seus lábios colam a outros lábios. Uma onda silenciosa o invade. Mesmo
com os olhos fechados sabe que é o rapaz que o paquerava. Ao mesmo tempo um
pedaço de papel é posto em sua mão. Enfia no bolso da calça.
No
aconchego do apartamento, abre o papel com um número de celular e embaixo um
nome: Anjo. Ao ligar ouve uma voz melodiosa dizer:
-
Já estou indo.
Assim
que desliga ouve um farfalhar de asas e a campainha toca. Abre a porta. Anjo o
empurra para dentro dando lhe um beijo apaixonado.
No
dia seguinte deitado no peito dele, Anjo lhe diz:
-
Obrigado, você me salvou, e duas lágrimas escorem pela sua face.
E
desaparece lentamente. Ele sorri feliz e abre o papel em sua mão e vê o número
do seu celular e embaixo um nome: Anjo. Vira para o outro lado e continua
dormindo.
Em
algum canto da cidade uma criança chora ao nascer.
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