Maldoso ele disse.
- Foda-se me esqueça nesse cu de mundo.
Esse cu de mundo ao qual estava sempre se referindo é o seu apartamento, aliás
de apartamento não tem nada. É um cubículo em baixo de uma escada, com uma cama
encostada à parede e ao fundo a cozinha com um fogão e geladeira, e a esquerda
o banheiro com chuveiro e privada tão somente, e roupas e mais roupas
espalhadas por todos os cantos até em cima do fogão.
- Foda-se, me esqueça nesse cu de mundo.
Como poderia eu esquecer o que é para ser feito já foi feito a muito tempo. Ele
não sabe e se sabe não demonstra. Ou será o mundo fodendo nós dois? Seja no
café, no almoço, na janta ou a noite embaixo dos lençóis, como sua voz de bagre
faminto, como se fosse o último abraço, diz a todo momento.
- Me esqueça aqui é foda-se o mundo.
A sua voz cavernosa não percebe o quanto dolorido a carne excitada sofre por
permanecer naquela ratoeira. Ele me abraça, tento me desvencilhar do abraço
pegajoso e caímos na cama suja de percevejo. Apesar de quase vinte anos juntos
a agonia nos embrutece. Não temos a coragem de reconhecermos o tédio entre nós
dois. Sorrio sem que ele perceba meu sorriso. Preciso sair, deixar esse vício
que amolece meus sentidos. Em seus olhos verdes cinza de musgo, noto a
ignorância em não perceber os fatos. Sufoco-me cada dia que passa. Doentes
procuramos a cura ao esquecermos um do outro. Não entende que não quero me explicar
nada, deixo para que ele perceba o que não quer perceber. Não vê que
transformamos nossos corpos em vagido silencioso de dores. Desprezo seu olhar
de bagre esfomeado. Penso em voltar, recuo a tempo sem que ele perceba e bato a
porta. Em mim morreu algo que não preciso dizer, ele que descubra. Fico à
espera, o que é inútil. Ao sair do prédio recuso-me a pensar no momento.
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