sábado, 27 de junho de 2020

Contos surrealistas 138


Pequenos ricos.

O disco rodava na vitrola. Vozes percorriam os copos e os corpos deliciavam-se na música exótica onde cada um se postava a sua maneira. Rodolfo com o copo na mão interrogava o corpo de Marta entretida com o falar de Marcio que, por sua vez, dirigia a palavra para Tânia e, esta observava Roberto dublando a voz de Elis Regina.
Foi então que João disse olhando para Maria:
- Pessoal que tal fazermos um joguinho?
Roberto parou de cantar bem na hora que dizia: “é pau, é pedra, é o fim do caminho, é um resto...”, e interessado se aproximou de João. Tânia deixou Marcio falando sozinho que, por sua vez, desenxabido acompanhou a amiga. Marta não querendo ficar de lado postou-se ao lado dos dois. Rodolfo ao ouvir a proposta de um joguinho bebeu rapidamente o uísque para não perder as explicações que João naquele momento começava a explanar.
- Não vamos jogar valendo dinheiro e, sim, valendo nossas roupas, isto é, com fichas. Cada ficha corresponde a uma peça de roupa, entende. Ficha um: camisa. Ficha dois: calça. Ficha três: cueca/calcinha. Ficha cinco: sapato. Ficha seis: meias. Ficha sete: sutiã. Aquele que ficar com o maior número de fichas será o perdedor. Entendido? Por exemplo, se as fichas forem calça, cueca e camisa, ele terá que tirar essas peças de roupa. Entendido? O ganhador será o que tiver menor número de fichas ou não tiver nenhuma. Certo?
Tudo combinado distribuíram as cartas. Rodolfo sentou ao lado de Marta e Marta ao lado de Marcio, depois Tânia, seguido de Roberto e por fim, João. Na primeira rodada, Rodolfo descartou três fichas, Marta duas, Marcio nenhuma, Tânia quatro, Roberto todas e João uma só. Na segunda rodada Marta ficou só de calcinha, Marcio de cueca e camisa, Tânia de sutiã e blusa, Roberto só de cueca e João ainda não tinha tirada nenhuma peça de roupa.
Nisso ouviu-se uma voz falando alto da porta:
- Mas o que é isso!
Foi um reboliço. Os mais rápidos, pegaram as roupas e se trancaram no banheiro. Os mais lentos tentavam se vestir meios atrapalhados. João tentou explicar:
- Espera mãe, eu explico.
- Não tem nada o que explicar.
Pegou o filho pela orelha, deu umas palmadas e arrastou para dentro.
- Venham ver o que essas crianças aprontaram.
- O que é isso, Marta? Não tem vergonha.
- Mãe, estávamos brincando de cassino.
- É! Imaginávamos que éramos ricos... – gaguejou Marcio.
- Que rico, que nada, seus pilantras. – retrucou a mãe de Marcio.
Assim, a pequena reunião de jovens ricos passando as férias num cassino qualquer, foi desfeita por mães furiosas e envergonhadas.

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