sábado, 11 de julho de 2020

Contos surrealistas 131


Adélio kafkiano

Adélio não sabia como foi parar no buraco e, muito menos, quanto tempo estava ali. Apenas lembrava que depois de um dia estafante, ao fim do expediente foi com os amigos tomar umas geladas, era uma sexta-feira quente de verão, propícia para molhar a garganta e jogar conversa fora. Quanto tempo ficou no bar e quantas cervejas havia tomado, não sabia dizer. O que recorda com certeza é que ao chegar em casa, tomou banho e caiu na cama feito pedra. Até havia marcado uma partida de futebol no dia seguinte, sábado, com os amigos.
Adélio ao acordar estranhou a escuridão, mal dava para divisar os contornos do que lhe parecia ser o seu quarto, mas ao se virar para levantar, bateu com a cabeça na parede. Foi então que reconheceu, estava deitado no chão de terra batida, e, para se certificar virou para o outro lado, a mesma coisa, bateu a cabeça, no que era a outra parede. Tateando descobriu que estava num buraco circular. Olhou para cima e viu uma minúscula claridade, deduziu ser a saída. Pensativo coçou a cabeça, como sairia dali? Deixou-se escorregar desanimado apoiando o queixo nos joelhos encolhidos.
Adélio não tinha esperança e muito menos alguma ideia de como sair dali, quando sentiu algo grotesco, como se fossem várias minúsculas pernas picando a pele do braço. Quando olhou com a intenção de espantar o que fosse, deparou com dois olhos piscando para ele. Assustado recuou o mais que pode. Nisso ouviu na mente as palavras:
- Não se assuste, sou uma barata, se quiser sair daqui vai precisar da minha ajuda.
Adélio horrorizado, não tendo como recuar, encostado à parede, começou a tremer, sem conseguir atinar o que se passava. Novamente ouviu as palavras:
- Não fique horrorizado, não sou a barata kafkiana, apenas quero ajudá-lo a sair daqui, esse buraco é meu, você está invadindo meu espaço entende.
 Adélio não entendia, e, também não estava a fim de entender, só pensava em sair dali, quando ouviu as palavras da barata:
- Siga-me sem perguntas.
Adélio aparvalhado não soube o que fazer. Seguir uma barata no escuro! Como? O buraco era circular ir para onde? Então, ouviu as palavras da barata.
- Vocês humanos de pouca fé, precisam ver além do que seus podres olhos veem.
Adélio, meio indeciso acompanhou o brilho dos olhos da barata que pareciam dois faróis de carro, e viu surgir uma abertura na parede do buraco. Achando um absurdo, acompanhou o gigantesco inseto por longos e compridos corredores sujos e infestados de minúsculos dejetos. Enquanto andavam, Adélio escutava um creck creck irritante vindo da barata. De repente, como se fosse do nada, surgiu uma claridade cegando-o.
- Aí está a saída, disse a barata.
Adélio sem pestanejar, passando por cima do inseto saiu num quintal que reconheceu ser o da sua casa. Entrou em casa, tomou um bom banho e caiu na cama feito pedra.

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