Adélio kafkiano
Adélio não
sabia como foi parar no buraco e, muito menos, quanto tempo estava ali. Apenas
lembrava que depois de um dia estafante, ao fim do expediente foi com os amigos
tomar umas geladas, era uma sexta-feira quente de verão, propícia para molhar a
garganta e jogar conversa fora. Quanto tempo ficou no bar e quantas cervejas
havia tomado, não sabia dizer. O que recorda com certeza é que ao chegar em
casa, tomou banho e caiu na cama feito pedra. Até havia marcado uma partida de
futebol no dia seguinte, sábado, com os amigos.
Adélio ao
acordar estranhou a escuridão, mal dava para divisar os contornos do que lhe
parecia ser o seu quarto, mas ao se virar para levantar, bateu com a cabeça na
parede. Foi então que reconheceu, estava deitado no chão de terra batida, e,
para se certificar virou para o outro lado, a mesma coisa, bateu a cabeça, no
que era a outra parede. Tateando descobriu que estava num buraco circular. Olhou
para cima e viu uma minúscula claridade, deduziu ser a saída. Pensativo coçou a
cabeça, como sairia dali? Deixou-se escorregar desanimado apoiando o queixo nos
joelhos encolhidos.
Adélio não tinha
esperança e muito menos alguma ideia de como sair dali, quando sentiu algo
grotesco, como se fossem várias minúsculas pernas picando a pele do braço.
Quando olhou com a intenção de espantar o que fosse, deparou com dois olhos
piscando para ele. Assustado recuou o mais que pode. Nisso ouviu na mente as
palavras:
- Não se
assuste, sou uma barata, se quiser sair daqui vai precisar da minha ajuda.
Adélio
horrorizado, não tendo como recuar, encostado à parede, começou a tremer, sem
conseguir atinar o que se passava. Novamente ouviu as palavras:
- Não fique
horrorizado, não sou a barata kafkiana, apenas quero ajudá-lo a sair daqui,
esse buraco é meu, você está invadindo meu espaço entende.
Adélio não entendia, e, também não estava a
fim de entender, só pensava em sair dali, quando ouviu as palavras da barata:
- Siga-me sem
perguntas.
Adélio
aparvalhado não soube o que fazer. Seguir uma barata no escuro! Como? O buraco
era circular ir para onde? Então, ouviu as palavras da barata.
- Vocês humanos
de pouca fé, precisam ver além do que seus podres olhos veem.
Adélio, meio
indeciso acompanhou o brilho dos olhos da barata que pareciam dois faróis de
carro, e viu surgir uma abertura na parede do buraco. Achando um absurdo, acompanhou
o gigantesco inseto por longos e compridos corredores sujos e infestados de
minúsculos dejetos. Enquanto andavam, Adélio escutava um creck creck irritante
vindo da barata. De repente, como se fosse do nada, surgiu uma claridade
cegando-o.
- Aí está a
saída, disse a barata.
Adélio sem
pestanejar, passando por cima do inseto saiu num quintal que reconheceu ser o
da sua casa. Entrou em casa, tomou um bom banho e caiu na cama feito pedra.
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