Sem saída
Quando ela foi embora ele estava chorando no canto do
quarto como bicho acuado. E continuou chorando por muito tempo. As lágrimas
caiam, molhando a roupa sem que se importasse, batiam no assoalho em pequenos
ruídos de estalactites e respigavam nos móveis e objetos. Como ácido furavam a
carne da madeira em profundos sulcos que ele podia caminhar desviando-se das
pontiagudas arestas.
Sim, chorou, não procurava e nem tentava sair dessa
situação descontrolada. Parecia que não havia oportunidade alguma de mudança,
e, mesmo que houvesse nada continuaria como antigamente. Andava pelos sulcos da
madeira revelando-se fraco e impotente. Não sabia ou, talvez, se fazia de
desentendido, entregue a um desespero fatídico sem ter uma solução. Pensava em suicídio,
e quem poderia lhe dizer que na morte não teria mais dor?
Ao pisar os sulcos úmidos e toscos, lembrava-se do
passado gravado na carne da memória ofuscando a olhar o presente. Estava só
constatou ao ouvir a porta se fechando, sozinho na imensidão do quarto
assombrado pela quietude dos moveis, abraçou os joelhos dobrados e procurou
sentir a respiração na parede do peito como martelo cadenciado batendo em algo
rígido. Fechou os olhos e dormiu, assim pensou, pois envolto pela penumbra da
tarde que o abraçava, sentiu-se se elevar acima dele flanando no ar úmido do
aposento.
O som da tarde avançando a noite encontrou-o
enrodilhado nas sombras do delírio. A respiração meio ofegante revelava
controle sobre os nervos. Decidido e resoluto, em pé, enxugou o pranto na manga
da camisa, e encaminhou-se para a porta. No entanto, ao virar a cabeça para
olhar por cima do ombro, ainda se viu sentado no canto do quarto na posição
fetal. Não deu importância, imitando os gestos dela, bateu a porta e desceu as
escadas no intuito de esquecer tudo aquilo.
Ao chegar à calçada os raios de neons refletidos nas
lajotas feriu os olhos. Por momento, indeciso esperou que a mente se
acostumasse com a claridade noturna da cidade. Sorriu livre dos sentimentos
deixados no canto escuro do quarto. Era outra pessoa, renovada, pronta para
novas decepções. Respirou a noite e com passos firmes se jogou a frente do
primeiro veículo que passava. O estranho é que não se ouviu nenhum baque de
corpo sendo jogado para o alto e, muito menos, alguma freada brusca. Nada tinha
acontecido, apenas via-se um corpo acuado e esquecido, abraçado aos joelhos
dobrados, num canto do quarto onde o encontraram no dia seguinte.
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