terça-feira, 7 de julho de 2020

Contos surrealistas 133


Sem saída

Quando ela foi embora ele estava chorando no canto do quarto como bicho acuado. E continuou chorando por muito tempo. As lágrimas caiam, molhando a roupa sem que se importasse, batiam no assoalho em pequenos ruídos de estalactites e respigavam nos móveis e objetos. Como ácido furavam a carne da madeira em profundos sulcos que ele podia caminhar desviando-se das pontiagudas arestas.
Sim, chorou, não procurava e nem tentava sair dessa situação descontrolada. Parecia que não havia oportunidade alguma de mudança, e, mesmo que houvesse nada continuaria como antigamente. Andava pelos sulcos da madeira revelando-se fraco e impotente. Não sabia ou, talvez, se fazia de desentendido, entregue a um desespero fatídico sem ter uma solução. Pensava em suicídio, e quem poderia lhe dizer que na morte não teria mais dor?
Ao pisar os sulcos úmidos e toscos, lembrava-se do passado gravado na carne da memória ofuscando a olhar o presente. Estava só constatou ao ouvir a porta se fechando, sozinho na imensidão do quarto assombrado pela quietude dos moveis, abraçou os joelhos dobrados e procurou sentir a respiração na parede do peito como martelo cadenciado batendo em algo rígido. Fechou os olhos e dormiu, assim pensou, pois envolto pela penumbra da tarde que o abraçava, sentiu-se se elevar acima dele flanando no ar úmido do aposento.
O som da tarde avançando a noite encontrou-o enrodilhado nas sombras do delírio. A respiração meio ofegante revelava controle sobre os nervos. Decidido e resoluto, em pé, enxugou o pranto na manga da camisa, e encaminhou-se para a porta. No entanto, ao virar a cabeça para olhar por cima do ombro, ainda se viu sentado no canto do quarto na posição fetal. Não deu importância, imitando os gestos dela, bateu a porta e desceu as escadas no intuito de esquecer tudo aquilo.
Ao chegar à calçada os raios de neons refletidos nas lajotas feriu os olhos. Por momento, indeciso esperou que a mente se acostumasse com a claridade noturna da cidade. Sorriu livre dos sentimentos deixados no canto escuro do quarto. Era outra pessoa, renovada, pronta para novas decepções. Respirou a noite e com passos firmes se jogou a frente do primeiro veículo que passava. O estranho é que não se ouviu nenhum baque de corpo sendo jogado para o alto e, muito menos, alguma freada brusca. Nada tinha acontecido, apenas via-se um corpo acuado e esquecido, abraçado aos joelhos dobrados, num canto do quarto onde o encontraram no dia seguinte.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...