domingo, 5 de julho de 2020

Contos surrealistas 134


Mais uma noite

Um risco nos lábios, acuado no canto da sala, surgiu no silencio da vida revelando a angústia na flor da pele. Foi um risco apenas, e não uma esperança, apesar de que Jose Valdo nunca foi de perder a esperança. Sua teoria mágica, como dizia infalível, conduzia os passos aos extremos dos atos. Na voragem do tecido cobrindo a pele macerada, estava o calor dos sentimentos. Não via motivo para agir, no entanto, aos trancos e barrancos seus pés o levavam por caminhos sombrios.
Jose Valdo tirou o cd do aparelho e colocou outro no momento em que gritaram:
- Pó, cara muda isso. Saia dessa fossa vá curtir a vida, ou coloque música mais alegre.
Nessa vaga e indefinida tristeza, Jose Valdo se enfurnou na voz de sentimento de dor moral cuja caracterização o levava a inibição das suas funções motoras e psicomotoras. Não tinha mais condição, o enfraquecimento mental e físico o dominava levando-o as complicações de psicose maníaca depressiva. O abatimento o achatava ao chão num esmorecimento sem cura.
Tinha de mexer os ossos, como dizia a mãe, mexer os ossos para não enferrujarem. Na lentidão dos olhos fixos no nada, entrou no banheiro. Olhou-se no espelho o rosto de outra pessoa olhava para ele. O rosto no espelho sorriu de encontro ao risco nos lábios. Não tinha motivo e nem sabia por que fez a barba. Tomou banho, se arrumou como se fosse a uma festa. Parou indeciso com a porta entreaberta. Recebeu os sons da noite como baforada de narquilé, tossiu, esfregou os olhos e voltou para dentro.
- O que foi? Esqueceu alguma coisa? Ou não vai mais sair? – perguntou a mãe ao cruzar com ele.
Não respondeu, subiu a escada, entrou no quarto e se jogou na cama. Por que tenho que sair? Movimentar-me? Pensou com as mãos atrás da cabeça. Para onde eu vou? Andar a esmo pela cidade não me comove como antigamente. Ver rostos que não me alegram mais e voltar vazio para casa?
De repente, dona Marta ouviu a porta bater. Jose Valdo decidira sair, pensou observando os rumores da novela. Sem destino, sem rumo, mas quando percebeu estava sentado no banquinho do bar bebendo uma cerveja. Não era noite especial nem nada, muito menos feriado, no entanto o bar estava cheio, mal dava para se mexer. Jose Valdo despreocupado tomava a cerveja, o pensamento distante, longe dos casais aos abraços e beijos. Era uma afronta ao ver os pares na maior satisfação pouco se importando onde estavam. Observava meio que excitado ou mesmo tempo, enojado na solidão de si mesmo.
Jose Valdo pisando a frustração de só ser, mais uma noite voltava acuado para o canto da sala.

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