Mais uma noite
Um risco nos lábios, acuado no canto da sala, surgiu
no silencio da vida revelando a angústia na flor da pele. Foi um risco apenas,
e não uma esperança, apesar de que Jose Valdo nunca foi de perder a esperança.
Sua teoria mágica, como dizia infalível, conduzia os passos aos extremos dos
atos. Na voragem do tecido cobrindo a pele macerada, estava o calor dos
sentimentos. Não via motivo para agir, no entanto, aos trancos e barrancos seus
pés o levavam por caminhos sombrios.
Jose Valdo tirou o cd do aparelho e colocou outro no
momento em que gritaram:
- Pó, cara muda isso. Saia dessa fossa vá curtir a
vida, ou coloque música mais alegre.
Nessa vaga e indefinida tristeza, Jose Valdo se
enfurnou na voz de sentimento de dor moral cuja caracterização o levava a inibição
das suas funções motoras e psicomotoras. Não tinha mais condição, o
enfraquecimento mental e físico o dominava levando-o as complicações de psicose
maníaca depressiva. O abatimento o achatava ao chão num esmorecimento sem cura.
Tinha de mexer os ossos, como dizia a mãe, mexer os
ossos para não enferrujarem. Na lentidão dos olhos fixos no nada, entrou no
banheiro. Olhou-se no espelho o rosto de outra pessoa olhava para ele. O rosto
no espelho sorriu de encontro ao risco nos lábios. Não tinha motivo e nem sabia
por que fez a barba. Tomou banho, se arrumou como se fosse a uma festa. Parou
indeciso com a porta entreaberta. Recebeu os sons da noite como baforada de
narquilé, tossiu, esfregou os olhos e voltou para dentro.
- O que foi? Esqueceu alguma coisa? Ou não vai mais
sair? – perguntou a mãe ao cruzar com ele.
Não respondeu, subiu a escada, entrou no quarto e se
jogou na cama. Por que tenho que sair? Movimentar-me? Pensou com as mãos atrás
da cabeça. Para onde eu vou? Andar a esmo pela cidade não me comove como
antigamente. Ver rostos que não me alegram mais e voltar vazio para casa?
De repente, dona Marta ouviu a porta bater. Jose Valdo
decidira sair, pensou observando os rumores da novela. Sem destino, sem rumo,
mas quando percebeu estava sentado no banquinho do bar bebendo uma cerveja. Não
era noite especial nem nada, muito menos feriado, no entanto o bar estava
cheio, mal dava para se mexer. Jose Valdo despreocupado tomava a cerveja, o
pensamento distante, longe dos casais aos abraços e beijos. Era uma afronta ao
ver os pares na maior satisfação pouco se importando onde estavam. Observava
meio que excitado ou mesmo tempo, enojado na solidão de si mesmo.
Jose Valdo pisando a frustração de só ser, mais uma noite
voltava acuado para o canto da sala.
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