Uma pequena cena.
Era
terça-feira. A temperatura instável produzia um frio irritante, mesmo assim,
pediu uma cerveja, logo depois de uma caipirinha e, enquanto bebia saboreava os
pedaços de isca de frango. Os pequenos dentes, bem tratados, penetravam nos
nacos proporcionando prazer ao saciar a fome. Abriu a ensebada agenda e, na
primeira linha, escreveu:
Sou falsa imagem projetada na vida pelo lápis da
imaginação. Sulcando as fibras imprimo linhas dando forma que preencherá todos
os espaços da folha. Às vezes paro indeciso, para onde vou? Para a esquerda na
horizontal ou na vertical? Em obliquo criando um ângulo ou uma perspectiva
diferente, moderna, ou devo seguir o padrão que coloca na minha mesa comida? Como
não tenho que me preocupar com o leite das crianças, desenho círculos
desconexos interligando uns aos outros sem me impressionar com o certo ou
errado, se a estética é ultrapassada ou underground, se com isso firo a
dignidade da arte acadêmica ou marginalizada. Tenho o que dizer aos fariseus
medrosos que se escondem atrás das armas. Se não me entendem não sou culpado
pela ignorância artística. Leiam, procurem saber os dos porquês disto e
daquilo, e verão o quanto são ignorantes.
Fechou a
agenda. Já não estava tão frio, a garoa tinha parado, mesmo assim algumas
pessoas estavam com o guarda-chuva aberto. Pediu mais uma caipirinha e outra
cerveja. Apesar de ainda sentir fome desfragmentou a bebida no estomago diluindo
o sabor da comida. Nisso uma onda de sentimento bateu no peito. Não sabia o que
fazer. Abriu novamente a agenda e escreveu:
Serpenteando o contorno da abstração, sigo o meu instinto de intelecto
medíocre e sobrevivo à margem da sociedade. Sou peregrino do infortúnio soterrado
de emoções que me levam desordenado a lugares incertos e duvidosos. Sigo por
fortuitos caminhos onde os ladrões de sentimentos roubam da alma a dignidade.
Não reclamo, pois metade do que eu passo foram por mim realizados em atitudes voluntárias
que naquele momento me deram prazer. Hoje ao rever meus passos vejo que muitos
poderiam ser evitados, os quais hoje não me envergonham e muito menos, me
arrependo.
Fechou novamente a agenda. Pagou a conta. Saiu a caminhar sob a garoa
fina molhando os ossos de concreto. Aos poucos sua figura macilenta foi se
incorporando a massa até que não se podia distinguir quem era quem. E ao se
expandir a cena em cento e oitenta graus, expondo a avenida toda, lentamente
surgiu, letra por letra, a palavra: fim.
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