domingo, 16 de agosto de 2020

Contos surrealistas 112

 

Uma pequena cena.

 

Era terça-feira. A temperatura instável produzia um frio irritante, mesmo assim, pediu uma cerveja, logo depois de uma caipirinha e, enquanto bebia saboreava os pedaços de isca de frango. Os pequenos dentes, bem tratados, penetravam nos nacos proporcionando prazer ao saciar a fome. Abriu a ensebada agenda e, na primeira linha, escreveu:

 

Sou falsa imagem projetada na vida pelo lápis da imaginação. Sulcando as fibras imprimo linhas dando forma que preencherá todos os espaços da folha. Às vezes paro indeciso, para onde vou? Para a esquerda na horizontal ou na vertical? Em obliquo criando um ângulo ou uma perspectiva diferente, moderna, ou devo seguir o padrão que coloca na minha mesa comida? Como não tenho que me preocupar com o leite das crianças, desenho círculos desconexos interligando uns aos outros sem me impressionar com o certo ou errado, se a estética é ultrapassada ou underground, se com isso firo a dignidade da arte acadêmica ou marginalizada. Tenho o que dizer aos fariseus medrosos que se escondem atrás das armas. Se não me entendem não sou culpado pela ignorância artística. Leiam, procurem saber os dos porquês disto e daquilo, e verão o quanto são ignorantes.

 

Fechou a agenda. Já não estava tão frio, a garoa tinha parado, mesmo assim algumas pessoas estavam com o guarda-chuva aberto. Pediu mais uma caipirinha e outra cerveja. Apesar de ainda sentir fome desfragmentou a bebida no estomago diluindo o sabor da comida. Nisso uma onda de sentimento bateu no peito. Não sabia o que fazer. Abriu novamente a agenda e escreveu:

                        

                         Serpenteando o contorno da abstração, sigo o meu instinto de intelecto medíocre e sobrevivo à margem da sociedade. Sou peregrino do infortúnio soterrado de emoções que me levam desordenado a lugares incertos e duvidosos. Sigo por fortuitos caminhos onde os ladrões de sentimentos roubam da alma a dignidade. Não reclamo, pois metade do que eu passo foram por mim realizados em atitudes voluntárias que naquele momento me deram prazer. Hoje ao rever meus passos vejo que muitos poderiam ser evitados, os quais hoje não me envergonham e muito menos, me arrependo.

 

Fechou novamente a agenda. Pagou a conta. Saiu a caminhar sob a garoa fina molhando os ossos de concreto. Aos poucos sua figura macilenta foi se incorporando a massa até que não se podia distinguir quem era quem. E ao se expandir a cena em cento e oitenta graus, expondo a avenida toda, lentamente surgiu, letra por letra, a palavra: fim.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...