segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.597(2020)

 

                       Cinderelo.

 

            Escuto um rock antigo, dos anos setenta, oitenta, mas não vejo de onde vem o som e, por outro lado, onde estou é impossível, não tem aparelho nenhum, apenas pessoas falando, gesticulando, bebendo, se beijando, garçons que passa de um lado para o outro, o bar é pequeno e, então, chego à conclusão que somente eu que escuto. Começo a sentir meus pés se movendo e logo em seguida estou no meio do bar dançando loucamente uma música que só eu escuto. Ninguém dá bola para o que me acontece, mas, de repente sinto um medo de altura. E me vejo querendo descer de uma árvore e lá embaixo ao pé da jabuticabeira um menino me incentivando a descer.

            — Vamos moleirão, desce.

            E em seguida ele começa a sacudir o galho em que estou. Grito:

            — Mãe, me ajuda.

            Aparece uma mulher de meia idade na porta da casa e brava diz:

            — Moleirão, subiu agora tem medo de descer. Desce logo medroso, se cair vai apanhar.

            Ai que o medo aumenta, pois o cair não era nada, mas apanhar é que era o terrível. Mudo meu pé direito, piso num galho e escuto o crack do galho quebrando e eu caindo. Não sinto o chão, pois uns braços fortes me seguram.

            — O que foi? Pergunto assustado.

            — Você estava caindo eu te segurei.

            Olho para ele, bonito, olhos azuis, cabelo preto e liso, com um sorriso branco...

            — Que hora são?

            — Meia-noite, me responde.

            — Desculpe, preciso ir.

            — Vai virar abobora é.

            — Sim, vou.

            Empurrando-o, saio correndo, quase derrubando o garçom e ainda escuto ele dizer:

            — Cinderelo...

            Desço as escadas apressado e consigo pegar o último metrô. Sento-me no primeiro banco e encosto a cabeça na janela e tiro uma cochilada.

            É isso... ou, não é?

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