O hotel.
Onde estaria se não fosse aqui? Não conseguiria viver
em outro lugar. Encheu o copo. A espuma transbordou escorrendo pelo mármore
escuro. Chegaria a algum ponto onde a calma o sossegasse? Balançou a cabeça. Não
se pode viver com perguntas idiotas, principalmente as que não têm resposta. Estava
sentado longe da porta, mesmo assim sentiu o vento frio quando o rapaz entrou. Parou
no meio do bar e os olhares de ambos se cruzaram. Não me venha sentar ao meu
lado roçando o joelho só para puxar conversa. Por infelicidade o rapaz sentou
ao seu lado encostando joelho com joelho cumprimentando-o. “O direito do mais forte
é a liberdade”*, disse o rapaz. Concordo em parte, pois nem todos possuem,
retrucou. O direito é uma utopia para enganar os esperançosos, ouviu a voz fanhosa
do rapaz. Chegou à conclusão que aquela conversa não levaria a nada. Terminou a
cerveja, pagou, disse boa noite e saiu para noite gelada. Abotoou a jaqueta de
couro, enfiou as mãos nos bolsos e seguiu meio apressado para não perder o
último metrô.
Ao chegar à esquina teve a impressão de que estava
sendo seguido. Foi uma sensação instantânea. Olhou para traz. Viu um vulto se
escondendo atrás do poste. Deu de ombros. Atravessou a rua. Deu mais uns passos
e rapidamente se virou. Conseguiu ver uma camisa vermelha se esconder atrás do pipoqueiro.
Nisso sentiu tocarem seu ombro e ao mesmo tempo uma voz baixa no ouvido. “Olhe
bem lá no alto”. Que? Ouviu de novo. “Olhe bem lá no alto”. Procurou o dono da
voz, mas não descobriu no vai e vem dos transeuntes. Olhe bem lá no alto, o que
será? Meio timidamente olhou. Enxergou a mulher na janela do quinto andar do
hotel gesticulando para ele. Com certa dificuldade entendeu que era para entrar
no hotel.
Ao passar pela porta giratória reconheceu-a.
Mostrando-se senhora de si, o abraçou e beijou como se fossem íntimos há muito
tempo. Vamos para o meu quarto, disse levando-o pelo braço. Ele quis retrucar,
mas ela colocou o dedo em seus lábios. No quarto, assim que ela fechou a porta,
foi puxado recebendo um demorado beijo. Incrédulo, sem saber o do porque aquilo
estava acontecendo, foi empurrado no sofá. Não resistiu se entregou aos beijos
possuindo-a como nunca mulher nenhuma o possuiu. Quando acordou no dia
seguinte, se viu sozinho na enorme cama.
Recebeu o ar frio da manhã ao pisar a calçada quando
algo pontudo cutucou suas costas. Você é obediente e não se vire, pois posso te
furar cara. Gostou do que encontrou lá no alto? Ele balançou a cabeça
afirmativamente. Então me passe quinhentos paus pela diversão. Obedeceu
entregando o dinheiro por cima do ombro. Não olhe para traz, continue andando.
Refreando a curiosidade ao chegar à esquina, olhou para traz. Foi quando teve a
certeza de que estava sendo seguido. Mas era tarde demais.
* Título de um filme de Rainer Fassbinder.
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