terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Contos surrealistas 98

 

E mais uma vez...

 

 

O vazio preenche as linhas brancas do caderno. Escrevo e a alma se enche de esperança por algo que ainda não aconteceu. Se aconteceu passou por mim sem me dirigir uma palavra. Nas mãos inertes de diálogos pousam silabas perdidas sem conexão. Agitam-se como organismos vivos no perigo de caírem ao chão e se quebrarem. Pequenos pedaços de cristais vibram ao sentir o sangue pulsando dentro da pele. As paredes aprisionam objetos descoloridos espalhados nos cantos e cantoneiras da sala. Lançam olhares opacos sem vida uns para os outros que se chocam ao meu olhar desorientado e sem brilho. Resolvo sair, perambular pelas ruas desertas de passos incertos. Cruzo com edifícios cheios de vidas preocupadas como zumbis sedentos de alimento.

Não devo me desorientar. O que acontece é por acontecer. São traumas que carrego a vida toda. Entro no Monarca com a intenção de beber uma cerveja. Quando dou por mim há vinte garrafas vazias a minha frente. Vinte garrafas cujo liquido entornei goela abaixo e agora serei obrigado a pagar. Retiro do fundo do bolso as malignas notas, passo para o cara do caixa. Recebo o troco num desdém de terror. Saio do bar pisando nos abstracionismos dos meus pés que deflagram moléculas estúpidas.

Vagueio incerto no caminho que é meu. Minha alma, meu espírito, minhas fibras voltam-se no itinerário onde surge a figura bela e nua na lembrança de você. E aquela noite brilha na intensidade do desejo envolvendo-nos mais uma vez. “Mais uma vez, mais uma vez, estou aqui... A barra do amor é que ele é meio ermo, a barra da morte é que não tem meio termo...”, a canção vibra os cubos de gelo no fundo do copo.

E mais uma vez volto aos braços da cama que me abraça sem reclamar.  

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