Estudantes.
Traçou uma linha grossa de uma ponta a outra do papel.
Em seguido, em sentido contrário, outra fina. Largou o lápis. Ergueu a folha.
As duas linhas formando um enorme X dividia o papel em quatro partes. O que
isso queria lhe dizer? Ou o que ele queria dizer com isso? Nada. Talvez o vazio
em quatro partes. O vazio da existência humana, o fútil vazio dele mesmo.
Nisso uma parte saltou do papel para o chão. Assustado
ele retrocedeu. Encostado a parede observava o pequeno triângulo se
aproximando. Aos poucos se agigantou, cresceu para cima e para os lados,
envolvendo-o. O vazio tornou-se enorme oprimindo o peito. Com muito esforço
conseguiu sair de dentro daquela coisa.
De repente, ao encostar-se à mesa, viu outra parte
pular para o chão. Outro triângulo rebelde, disse mentalmente. Como aconteceu
com o primeiro, agigantou-se crescendo para cima e para os lados. Aproximou-se
ao outro e suas bordas se uniram. Acossado, começou a correr pela sala tentando
fugir daquela coisa grotesca. Mas sabia que não conseguiria se safar tão fácil.
O peito parecia inchado pronto a estourar.
Assustou-se ao pisar na terceira parte. Tinha pulado
para o chão sem que tivesse percebido. E como as outras duas, agigantou-se
crescendo para os lados e para cima, e como a segunda, se uniu as outras duas.
Pensou ainda ter um pouco de esperança para sair dali. Correu até a porta, mas
foi barrado pela quarta parte.
Como? Gritou o silêncio dentro dele. E como a
terceira, assim que se se agigantou para os lados e para cima, se juntou as
outras três formando uma pirâmide. Estava preso, engolido por quatro pedaços de
figuras que teve a ousadia de criar no papel branco. Prisioneiro no vazio da
vida, no branco dos seus passos. Tentou ainda com os braços romper uma das
paredes de papel, mas foi inútil. Enrodilhou-se abraçando as pernas e quieto
ficou no chão frio da pirâmide.
O professor virou-se para a turma que se postara atrás
dele e disse:
- Vejam vocês, principalmente para os da psiquiatria,
aqui está um bom exemplo, Não há nada dentro da cela, apenas o paciente e as
quatro paredes, no entanto ele cria um elemento que só ele vê e teme. O maior
medo que existe, é o que vem de dentro da gente. É o que vocês terão que
enfrentar...
E o grupo passou para a outra cela.
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