quinta-feira, 18 de março de 2021

Contos surrealistas 88

                                         Prevenido vale por dois.

 

Na forquilha das ações, timidamente colocou todo o pensamento sem se preocupar com isso ou com aquilo. Teve a sorte de usar, como material, o galho da melhor árvore que encontrou no quintal. Por sorte não foi preciso subir muito, achou um galho que se bifurcava em dois, teve apenas o trabalho de cortar bem na base do tronco.

Ele tem noção do que fez, e tem também conhecimento de que será criticado por isso, mas foi preciso. Agora é só fazer o estilingue e, já que é difícil achar mamonas, optou por bolinhas de vidros. Sabe que o estilingue não é arma poderosa, mas com as bolinhas de vidros consegue fazer algum estrago, é só mirar com precisão e lá se vai um olho. É errado? É. No entanto tem que se armar, a qualquer hora pode surgir alguma briga, quem sabe? E depois tem a vantagem de não entrar diretamente no confronto, no corpo a corpo. Para isso tem que ter um estoque grande de bolinhas, no entanto se for preciso pode usar pedregulhos ou essas pedras que usam para fazer laje e que se encontra facilmente pela cidade em constante reforma. Assim, todo o dia sai prevenido. A mãe não dizia: “Prevenido vale por dois”, então, preciso me cuidar complementava.     

E foi assim que saiu naquele dia. Prevenido. Estilingue no bolso traseiro e pendurado no ombro uma espécie de embornal feito por ele com as bolinhas de vidro. Encontrou os amigos já reunidos na Praça da Boa Morte. Em cima do que era um coreto, o chefe da gangue discursava incentivando o pessoal a ter ânimo e não deixar roubarem o que pertencia a eles, isto é, a Praça da Boa Morte.

Conhecidos como O Bando do Buraco Quente, pois duas quadras dali existia a zona mais perigosa onde viviam a laia mais baixa da cidade com suas prostitutas, ladrões, assassinos, e tudo o que era fora da lei.

Assim que o chefe desceu do coreto, ele viu a pedra arremessada em sua direção. Só teve tempo em desviar, o que não foi o suficiente, pois um filete de sangue escorreu pela testa. Ao mesmo tempo armando o estilingue, lançou a bolinha de vidro que cortando o ar, acertou em cheio o inimigo que não teve tempo de fugir.

“Quem tem pensamento automático é o vencedor” – pensou correndo até onde o corpo do inimigo caiu. No instante em que se abaixava, sentiu a pancada na cabeça, sem dar tempo em revidar ou ver quem era, caiu desmaiado.

Ao abrir os olhos, a sua frente estava um coro de vozes masculinas cantando: Jesus, a alegria dos homens, e, acima, uma faixa com os dizeres: “Bem vindo ao centro de reabilitação Jesus, a alegria dos homens”.

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