sexta-feira, 5 de março de 2021

Contos surrealistas 93

                                     O jantar.

 

Os dentes correram entre as perolas rompendo o colar. As contas caíram dentro do decote, outras se esparramaram pelo chão e, algumas foram parar debaixo da cama. Em sua mão ficou o cordão que prendiam as contas. Soltou um longo suspiro de resignação e se abaixou a cata das perolas.

Na capacidade dos sentimentos foi juntando uma a uma na esperança de montar o colar. Mas então, para sua decepção faltava uma das contas. Pôs-se de quatro para olhar em baixo dos móveis na paciência mórbida alojada em si. Nos cantos escuros, nas frinchas das madeiras, despojando o medo, introduzia o dedo na esperança de encontrar o objeto precioso. O cansaço já a dominava quando sentiu o peso dele forçando-a a se debruçar no chão do quarto. Não houve tempo, não houve espaço e, mesmo que quisesse não conseguiria se desvencilhar das mãos pegajosas amassando suas roupas, e muito menos o ir e vir da carne com carne convulsionada pela excitação.

Entre as coxas sentiu a queimação do sexo com sexo que aumentava forçando a penetração, além de machucar, incentivava-a ir adiante, não parar. Assim como não desejava empurrando o corpo dele ao mesmo tempo puxava-o contra o seu. Lábios afoitos percorriam a nuca mordiscando de leve. A mão áspera subia e descia as reentrâncias alimentando seu desejo.

A língua umedecia a pele entre os fios do cabelo, se introduzia na orelha, como ponta de agulha arrepiando-a toda. Um frenesi úmido a envolveu toda ao sentir ele dentro dela. Quem seria? Impossibilitada não via o rosto de quem a dominava. Deveria ser o desterrado, o cão, o íncubo,

Deixou-se ficar imóvel, não tentava mais se desvencilhar do opressor. Começava até a gostar do vai e vem em cima dela. Já não sentia mais o chão áspero e frio, e, muito menos o desconforto da situação.

Foi então que se lembrou. Precisava achar a última conta para montar o colar. Num gesto sem insignificância ao virar a cabeça foi que viu a pérola presa aos pés da cama encostada à parede. Esticou o braço e pegou o objeto fechando-o na mão.

Levantou-se, colocou a pérola que faltava, deu um nó que não ficasse muito visível, enfiou o colar no pescoço, passou a mão pelo vestido olhando-se no espelho, e saiu do quarto.

Ao descer as escadas todos os olhares, a esperavam para o jantar, caíram em cima dela que sorriu graciosa e feliz por sentir-se amada.

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