O jantar.
Os dentes correram entre as perolas rompendo o colar. As
contas caíram dentro do decote, outras se esparramaram pelo chão e, algumas
foram parar debaixo da cama. Em sua mão ficou o cordão que prendiam as contas. Soltou
um longo suspiro de resignação e se abaixou a cata das perolas.
Na capacidade dos sentimentos foi juntando uma a uma na
esperança de montar o colar. Mas então, para sua decepção faltava uma das
contas. Pôs-se de quatro para olhar em baixo dos móveis na paciência mórbida
alojada em si. Nos cantos escuros, nas frinchas das madeiras, despojando o
medo, introduzia o dedo na esperança de encontrar o objeto precioso. O cansaço
já a dominava quando sentiu o peso dele forçando-a a se debruçar no chão do
quarto. Não houve tempo, não houve espaço e, mesmo que quisesse não conseguiria
se desvencilhar das mãos pegajosas amassando suas roupas, e muito menos o ir e
vir da carne com carne convulsionada pela excitação.
Entre as coxas sentiu a queimação do sexo com sexo que
aumentava forçando a penetração, além de machucar, incentivava-a ir adiante,
não parar. Assim como não desejava empurrando o corpo dele ao mesmo tempo
puxava-o contra o seu. Lábios afoitos percorriam a nuca mordiscando de leve. A
mão áspera subia e descia as reentrâncias alimentando seu desejo.
A língua umedecia a pele entre os fios do cabelo, se
introduzia na orelha, como ponta de agulha arrepiando-a toda. Um frenesi úmido
a envolveu toda ao sentir ele dentro dela. Quem seria? Impossibilitada não via
o rosto de quem a dominava. Deveria ser o desterrado, o cão, o íncubo,
Deixou-se ficar imóvel, não tentava mais se desvencilhar
do opressor. Começava até a gostar do vai e vem em cima dela. Já não sentia
mais o chão áspero e frio, e, muito menos o desconforto da situação.
Foi então que se lembrou. Precisava achar a última
conta para montar o colar. Num gesto sem insignificância ao virar a cabeça foi
que viu a pérola presa aos pés da cama encostada à parede. Esticou o braço e
pegou o objeto fechando-o na mão.
Levantou-se, colocou a pérola que faltava, deu um nó
que não ficasse muito visível, enfiou o colar no pescoço, passou a mão pelo
vestido olhando-se no espelho, e saiu do quarto.
Ao descer as escadas todos os olhares, a esperavam
para o jantar, caíram em cima dela que sorriu graciosa e feliz por sentir-se
amada.
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