Resistência.
Eles estavam no quarto fechado. Ela deitada no berço
sorrindo sonhos que talvez viessem a realizá-los. Ele em pé olhava-a se
questionando pelos sonhos não realizados, e, se perguntando os dos porquês da
vida. Dizem que há sempre uma segunda chance. Ele tinha essa segunda chance?
Acreditava que não. E se tivesse onde estava essa segunda chance? Impossível!
Não merecia viver, apesar da idade, a vida para ele se fora há muito tempo. Não
tinha mais forças, se sentia esgotado, derrotado.
Estavam no quarto fechado a um bom tempo. Ela deitado
no berço no aconchego do cobertor. Ele em pé no desassossego de estar dentro de
questionamentos irrespondíveis. Andando de um lado para o outro não se descedia.
A propulsão emotiva levava-o a fazer o que achava certo, e a razão levava-o a
outra que o repugnava e o atraía. Importava se o sol com seu brilho anunciassem
as manhãs? Não, não importava.
No quarto fechado a um bom tempo, deitada no berço ela
usufruía de proteção. Em pé, sentado, ou de um lado para o outro marcando
presença, indeciso se fechava em amargura e ódio. Afinal, não fora sua culpa se
as coisas chegaram a esse ponto. Apenas tinha noção de que não poderia
continuar como estavam. Tinha que pôr um fim nisso.
A um bom tempo deitada no berço ela dormia sem
imaginar e, nem podia o que se passava ao redor. Ele também não podia e nem
tinha condição de saber o que se passava na cabeça de sua filha de oito meses. Se
soubesse não estaria agora nesse tormento, na dúvida, no questionamento de
certo ou errado.
Ela já não dormia mais no berço. Estava agora na cama
do casal. Ele debruçado sobre a filha riscava o fósforo para lançar no álcool
em que embebedara toda a volta da cama, do guarda-roupa, do berço, da
cortina... Não deixaria o fogo lamber a pele da sua filha, talvez num milagre
ela fosse salva. Teria que ser forte aguentar o fogo e não sair de cima dela. E
foi o que...
Trinta anos depois, dando a volta por cima, ele olhava
embevecido para ela que dormia sorrindo agradecida a ele por ter resistido à
depressão assassina.
Pastorelli
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