Amantes
A sala fria e escura trazia a melancolia na poeira dos móveis. Com ímpeto, puxou as grossas cortinas deixando a claridade limpa e bonita da manhã inundar as sombras que se esconderam pelos cantos do ambiente.
Melinda foi até o grande e preto piano, no canto da
sala. Abriu a tampa e passou os dedos aleatoriamente pelas teclas produzindo um
som afinado que entrou na suavidade do dia. Talvez fosse muito cedo. A casa
ainda ressonava embalando seus habitantes. Melinda não se importou. Sentou na
banqueta, pousou os dedos longos e finos nas teclas e extraiu delas a Sonata em
si menor, de Bach. Assim que as primeiras notas ganharam o espaço saindo pela
janela do amplo jardim, Ricardo acordou do sono silencioso debaixo da frondosa
árvore.
Com passos lentos, como se estivesse pisando em teclas
pretas e brancas de flores, aproximou-se da janela. Sentou numa pedra próxima
embevecido pela melodia. Uma profunda beleza invadiu o peito, deixando-o
tristonho. Amava demais a música, sentia inveja de Melinda. Pacato cidadão do
mundo, semi analfabeto, nasceu jardineiro e, será sempre jardineiro, sabia
disso, não tinha condição de aprender a tocar instrumento nenhum.
Melinda notou a
presença de Ricardo. Nem bem começou a tocar, ele surgiu integrando-se ao mesmo
espaço. Houve uma interação mútua, partindo tanto dela como da parte dele.
Ricardo da pedra passou ao parapeito da janela e,
quando deu por si, estava ao lado de Melinda.
Os dois desligaram-se de tal maneira que nada mais os
interessavam. Rodopiaram em notas espiraladas num equilíbrio abstrato e
perfeitas. Suas peles não se tocaram, no entanto absorviam a quentura dos
corpos respirando a mesma excitação. E quando as últimas notas pararam de
vibrar as fibras da sala, exaustos, cada um a sua maneira, transpôs o limite
entre o devaneio e a realidade.
Ricardo voltou ao seu sono debaixo da frondosa árvore e Melinda a sua vida pacata de menina burguesa.
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