quinta-feira, 29 de abril de 2021

Contos surrealistas 71

                                 Amantes

A sala fria e escura trazia a melancolia na poeira dos móveis. Com ímpeto, puxou as grossas cortinas deixando a claridade limpa e bonita da manhã inundar as sombras que se esconderam pelos cantos do ambiente.

Melinda foi até o grande e preto piano, no canto da sala. Abriu a tampa e passou os dedos aleatoriamente pelas teclas produzindo um som afinado que entrou na suavidade do dia. Talvez fosse muito cedo. A casa ainda ressonava embalando seus habitantes. Melinda não se importou. Sentou na banqueta, pousou os dedos longos e finos nas teclas e extraiu delas a Sonata em si menor, de Bach. Assim que as primeiras notas ganharam o espaço saindo pela janela do amplo jardim, Ricardo acordou do sono silencioso debaixo da frondosa árvore.

Com passos lentos, como se estivesse pisando em teclas pretas e brancas de flores, aproximou-se da janela. Sentou numa pedra próxima embevecido pela melodia. Uma profunda beleza invadiu o peito, deixando-o tristonho. Amava demais a música, sentia inveja de Melinda. Pacato cidadão do mundo, semi analfabeto, nasceu jardineiro e, será sempre jardineiro, sabia disso, não tinha condição de aprender a tocar instrumento nenhum.

 Melinda notou a presença de Ricardo. Nem bem começou a tocar, ele surgiu integrando-se ao mesmo espaço. Houve uma interação mútua, partindo tanto dela como da parte dele.

Ricardo da pedra passou ao parapeito da janela e, quando deu por si, estava ao lado de Melinda.

Os dois desligaram-se de tal maneira que nada mais os interessavam. Rodopiaram em notas espiraladas num equilíbrio abstrato e perfeitas. Suas peles não se tocaram, no entanto absorviam a quentura dos corpos respirando a mesma excitação. E quando as últimas notas pararam de vibrar as fibras da sala, exaustos, cada um a sua maneira, transpôs o limite entre o devaneio e a realidade.

Ricardo voltou ao seu sono debaixo da frondosa árvore e Melinda a sua vida pacata de menina burguesa.

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