Marabá.
Para os amigos:
Savasini, Leonice, Katia e Bob.
Leonice num gole só bebeu o café requentado. Ao lado do copo, datilografado em papel A4 estava o Manifesto Vanguardista que tinha de ler. De onde estava, mesmo com a porta fechada, ouvia os apupos e vaias encobrindo a Orquestra Filarmônica do Estado de São Paulo, regida por Bob Villa-Lobos. Faltavam cinco minutos para ela entrar em cena, cinco minutos para enfrentar a platéia enlouquecida. Num misto de enfado e angustia, jogou as três folhas do texto em cima do toucador derrubando os frascos de perfume. Como vieram parar ali? O que teria acontecido para estarem participando da Semana de Arte Moderna de Vinte e Dois? Não sabia. Culpa do Eduardo por querer divulgar o Grupo? Tudo bem entendia e até incentivava o Grupo de Poetas Itinerantes da Paulista que, com um trabalho excelente, tinha que ser reconhecido. Em sua mente uma pequena lembrança da noite anterior surgia como névoa escura que teimava em não se dissipar. O grupo, em nome de Eduardo, tinha aceitado o convite para participar do sarau poético na fazenda do poeta anarquista Horácio, O Grego, no interior de São Paulo. Como nuvem escura que aos poucos vai se dissipando até aparecer o céu azul e límpido, a névoa que encobria a lembrança aos poucos clareava a mente. Tinham chegado à noite anterior, mais ou menos a meia-noite na fazenda e, o anfitrião ofereceu um pequeno lanche pedindo aos participantes a promessa em se empenharem para que o sarau fosse um tremendo sucesso. Em seguida, brandindo as taças, beberam o champanhe prometendo cumprir a promessa. No dia seguinte, no café da manhã, foram distribuídos os papéis. Leonice ficou encarregada de representar Anita Mafald; Eduardo seria Mário de Andrade; Katia personificaria Tarsila do Amaral; Bob representaria o maestro Villa-Lobos e, PastorElli, seria o poeta antropofágico Oswald de Andrade. Enquanto esperava para entrar em cena, Leonice se deu conta do que estava acontecendo. O engraçado é que o pessoal se personificou realmente em seus papéis. Falavam e agiam como se fossem os próprios integrantes da Semana de Vinte e Dois. Bob que sempre detestou música erudita se portava como se fosse o próprio Villa-Lobos. O que estava acontecendo? Será que colocaram alucinógeno no champanhe? Como Leonice não gostava de champanhe, mal encostou os lábios na taça fingindo que tomava. Talvez, por isso não fora totalmente hipnotizada, se é que foram mesmo! Leonice notara outra coisa aterradora. Pareciam que estavam dentro de um filme buelniano. Não conseguiam sair dali. Teve confirmação quando por duas vezes sentiu necessidade de sair e, ao se dirigir a porta, fora chamada. E, também ao ver Eduardo parado em frente à porta indeciso sem saber o que fazer, até que ela perguntou o que acontecera e, ele dissera que tivera a intenção de sair, mas algo o impedia. Se fosse algum feitiço era preciso quebrar, pois seu instinto feminino lhe dizia que alguma coisa desagradável estava para acontecer. Amanhã ou depois de... Assustou-se. Não sabia dizer quanto tempo estava nessa grotesca e surrealista fantasia. Um dois ou três dias...
Incrédulos olharam um para o outro ao ouvirem o relato de Leonice. Parecia que as palavras de Leonice ricocheteavam num vazio ecoando entre eles sem atingir o alvo. Kátia retrucou que pelo menos a criatividade é que estava prevalecendo, isso dava um valor imenso a todas as apresentações. Por sua vez, Bob rebateu dizendo que nada valeria a criatividade sem a beleza espontânea e sincera de cada um. PastorElli que pouco era de falar, argumentou que a beleza sem fundamento de conhecimento se perdia dentro da obra. E enquanto os letreiros subiam e as luzes acendiam, Eduardo achava que o prometido tinha sido cumprido. Leonice enfiando o braço no braço de Eduardo perguntou quando e onde o Grupo de Poetas Itinerantes da Paulista se reuniria outra vez. No momento em que pisaram a calçada, as luzes do cinema foram apagadas e todos concordaram que o Marabá estava bonito novamente. E seguindo em direção a Praça da República, elogiando a reabilitação do centro, foram à procura de algum restaurante, pois todos estavam com fome...
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