sexta-feira, 9 de abril de 2021

Contos surrealistas 79

                                     Novamente Julie.

 Ela estava no parapeito da sacada numa pose graciosa. A amanhã surgia entre nuvens escuras e um sol tímido se infiltrava impondo sua vontade. Lá embaixo o movimento dos carros preconizava um dia normal como outro qualquer.

Com os olhos fitos no horizonte, dava a impressão que nada lhe interessava. Às vezes mudava de posição, outras fechava os olhos por segundos para depois abrir como se estivesse vendo aquela paisagem pela primeira vez. Aquele canto do parapeito era o seu lugar favorito. Por longos vinte minutos, todas as manhãs permanecia ali, quieta, observando, pensando sabe-se lá o que.

E nessa manhã, não se sabe o porquê, assim que o sol a alcançou se esticou toda, abriu as pastas expondo as longas unhas afiadas, eriçou os pelos, soltou um longo miado, e como morcego voador, se lançou no espaço. Com as pernas dianteiras e traseiras abertas flanou suavemente feito pluma ao sabor do vento.

Dentro do apartamento ouviu-se um grito e uma menina loira, de uns dez anos mais ou menos, correu até a sacada debruçando-se no parapeito chorando desesperada ao ver sua gata pousar graciosamente em cima do ônibus que passava.

Dias depois, chegando do serviço, o pai lhe deu um pacote que, afoitamente ela abriu e sorriu um sorriso longo e gostoso. Dentro do pacote estava um filhote de gata.

- Que nome você vai dar para ela? – perguntou o pai.

- Julie – respondeu a menina.

- Novamente Julie?

- Sim, novamente Julie – disse a menina abraçando o filhote de gata.

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