O sorriso de Dolores
Joaquim sentado no canto do sofá, perto da janela em
atitude imponente, dava a impressão que estava meditando na vida. Com cento e
oitenta anos, era ainda fisicamente um homem forte, ombros largos, olhar
seguro, bochechas salientes apesar dos seus setenta quilos, mãos largas, e um
sorriso não querendo sorrir, lábios finos abriam-se levemente deixando ver os
dentes brancos.
Era um sorriso cansado e satisfeito. Se prestasse
atenção, o sorriso de Joaquim era o mesmo sorriso da estátua de Dolores em cima
da cômoda perto dele. Estátua essa que o acompanhava por longos e longos anos,
ninguém se lembrava como ela apareceu e como chegou às mãos de Joaquim. Mas
conheciam, quer dizer, supunham que conheciam a lenda da estátua.
Corria por entre os parentes a história de que Dolores
fora uma morena escrava disputada por dois irmãos, pai e tio de Joaquim. As
irmãs, mãe e tia de Joaquim ao saberem da paixão dos maridos pela negra, surram
a pobre coitada, além de outras mutilações com a ajuda do capataz. Dolores ao
se restabelecer da surra, foi a um terreiro de macumba, mandou esculpir a
estátua e num trabalho extenso que varou a noite adentro, passou sua alma para
a estátua e aquele que a possuísse estaria ganhando um ano de vida pelo tempo
que ficasse com ela. Se por acaso fosse mulher, estaria perdendo um ano de vida
pelo tempo que ficasse com ela. Terminado o trabalho, cinco dias depois Dolores
falecia sem que os irmãos soubessem.
Um dia ao abrir a porta da casa grande, a mãe de
Joaquim encontrou junto um bilhete explicando o significado e do por que da
estátua. Sendo uma mulher prática, sem escrúpulos, não acreditando em magia e
muito menos em religião, tomou a estátua para sim a colocando em cima da
lareira da sala. Três dias depois, a mãe de Joaquim falecia sem que soubessem o
motivo. A partir desse dia a lenda de Dolores se propagou entre os homens
causando entre eles discórdia e desavença.
Joaquim conhecia bem a lenda, não dizia nada, não
concordava com nada, apenas sorria um sorriso de Dolores. Cansado de viver,
sentindo a vida pesar, num último gesto, com a bengala, derrubou a estátua que
caiu em mil pedaços. Ao mesmo tempo um grito se fez ouvir deixando Joaquim
desfalecido no canto do sofá perto da janela onde o sol invadia o ambiente
iluminando os cantos escuros da alma.
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