quarta-feira, 7 de abril de 2021

Contos surrealistas 80

                                     O sorriso de Dolores

 

Joaquim sentado no canto do sofá, perto da janela em atitude imponente, dava a impressão que estava meditando na vida. Com cento e oitenta anos, era ainda fisicamente um homem forte, ombros largos, olhar seguro, bochechas salientes apesar dos seus setenta quilos, mãos largas, e um sorriso não querendo sorrir, lábios finos abriam-se levemente deixando ver os dentes brancos.

Era um sorriso cansado e satisfeito. Se prestasse atenção, o sorriso de Joaquim era o mesmo sorriso da estátua de Dolores em cima da cômoda perto dele. Estátua essa que o acompanhava por longos e longos anos, ninguém se lembrava como ela apareceu e como chegou às mãos de Joaquim. Mas conheciam, quer dizer, supunham que conheciam a lenda da estátua.

Corria por entre os parentes a história de que Dolores fora uma morena escrava disputada por dois irmãos, pai e tio de Joaquim. As irmãs, mãe e tia de Joaquim ao saberem da paixão dos maridos pela negra, surram a pobre coitada, além de outras mutilações com a ajuda do capataz. Dolores ao se restabelecer da surra, foi a um terreiro de macumba, mandou esculpir a estátua e num trabalho extenso que varou a noite adentro, passou sua alma para a estátua e aquele que a possuísse estaria ganhando um ano de vida pelo tempo que ficasse com ela. Se por acaso fosse mulher, estaria perdendo um ano de vida pelo tempo que ficasse com ela. Terminado o trabalho, cinco dias depois Dolores falecia sem que os irmãos soubessem.

Um dia ao abrir a porta da casa grande, a mãe de Joaquim encontrou junto um bilhete explicando o significado e do por que da estátua. Sendo uma mulher prática, sem escrúpulos, não acreditando em magia e muito menos em religião, tomou a estátua para sim a colocando em cima da lareira da sala. Três dias depois, a mãe de Joaquim falecia sem que soubessem o motivo. A partir desse dia a lenda de Dolores se propagou entre os homens causando entre eles discórdia e desavença.

Joaquim conhecia bem a lenda, não dizia nada, não concordava com nada, apenas sorria um sorriso de Dolores. Cansado de viver, sentindo a vida pesar, num último gesto, com a bengala, derrubou a estátua que caiu em mil pedaços. Ao mesmo tempo um grito se fez ouvir deixando Joaquim desfalecido no canto do sofá perto da janela onde o sol invadia o ambiente iluminando os cantos escuros da alma.

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