sábado, 22 de maio de 2021

Contos surrealistas 60

Trava.

 

Ao sair do banco a porta giratória travou. O segurança alto, encorpado, com cara de tamanduá amassado, falou alto:

- Se afaste, fique atrás da porta.

Afastou-se. Olhou abobalhado, ficar atrás da porta? Como ficar atrás da porta giratória. Tudo bem, se afastou e ficou de lado. O segurança falou de novo:

- Tire celular, chave, moedas, tudo o que for metal dos bolsos.

Tirou tudo, até o cinto, pois a fivela sendo de metal... Não adiantou, travou novamente.

- Não tem mais nada de metal?

- Não, não tenho mais nada.

- Tire o sapato.

- O que?

- É o sapato. Tem fivela de metal.

- Mas seu guarda...

- Não tem mais e nem menos.

Tirou os sapatos, ficou só de meia e, envergonhado procurava esconder o dedão do pé esquerdo furado.

- Passe a agora.

Não adiantou, travou novamente. O pessoal que queriam sair, fazia fila atrás dele e, os que queriam entrar resmungavam, se exaltavam. Alguns até gritavam:

- Chame o gerente.

Uma senhora de idade sentou nos degraus do banco. O segurança, outro cara encorpado, alto com cara também de tamanduá amassado, gritou com a senhora:

- Aí não é lugar pra sentar, minha senhora.

- Não sou sua senhora porra nenhuma, veja como fala comigo.

Respondeu levantando-se. Foi então que a gritaria passou a ser geral.

- Apedrejem o banco.

- O meu, resolve logo isso, saia logo.

O povo ameaçava quebrar o vidro e entrar. A policia foi chamada. O gerente, um sujeito miudinho, mais parecendo fuinha escondida, chegou se impondo:

- O que foi?

- A porta esta travando, e o rapaz aqui não pode sair.

- Vamos ver isso.

Foi para o fundo, saiu por uma porta, logo voltando com um sujeito de macacão.

- Veja o que pode fazer e logo.

Ele olhou para o segurança, depois para o rapaz descalço, em seguida para fora, sorriu, voltou para o segurança:

- Você é novo, não é?

- Sou, respondeu o segurança.

- E ninguém falou da trava de bobo?

- O que? Trava de bobo?

- É, essa trava que o pessoal aciona quando o expediente encerra. Alguém acionou a trava sem você perceber e o   fez de bobo, cara.

- Não to sabendo.

A trava sendo desabilitada, cinco minutos depois tudo voltava ao normal. O rapaz saiu do banco e quem esperava para entrar não teve dificuldade nenhuma.

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