Trava.
Ao sair do banco a porta giratória travou. O segurança
alto, encorpado, com cara de tamanduá amassado, falou alto:
- Se afaste, fique atrás da porta.
Afastou-se. Olhou abobalhado, ficar atrás da porta?
Como ficar atrás da porta giratória. Tudo bem, se afastou e ficou de lado. O
segurança falou de novo:
- Tire celular, chave, moedas, tudo o que for metal
dos bolsos.
Tirou tudo, até o cinto, pois a fivela sendo de
metal... Não adiantou, travou novamente.
- Não tem mais nada de metal?
- Não, não tenho mais nada.
- Tire o sapato.
- O que?
- É o sapato. Tem fivela de metal.
- Mas seu guarda...
- Não tem mais e nem menos.
Tirou os sapatos, ficou só de meia e, envergonhado
procurava esconder o dedão do pé esquerdo furado.
- Passe a agora.
Não adiantou, travou novamente. O pessoal que queriam
sair, fazia fila atrás dele e, os que queriam entrar resmungavam, se exaltavam.
Alguns até gritavam:
- Chame o gerente.
Uma senhora de idade sentou nos degraus do banco. O
segurança, outro cara encorpado, alto com cara também de tamanduá amassado,
gritou com a senhora:
- Aí não é lugar pra sentar, minha senhora.
- Não sou sua senhora porra nenhuma, veja como
fala comigo.
Respondeu levantando-se. Foi então que a gritaria
passou a ser geral.
- Apedrejem o banco.
- O meu, resolve logo isso, saia logo.
O povo ameaçava quebrar o vidro e entrar. A policia
foi chamada. O gerente, um sujeito miudinho, mais parecendo fuinha escondida,
chegou se impondo:
- O que foi?
- A porta esta travando, e o rapaz aqui não pode sair.
- Vamos ver isso.
Foi para o fundo, saiu por uma porta, logo voltando
com um sujeito de macacão.
- Veja o que pode fazer e logo.
Ele olhou para o segurança, depois para o rapaz
descalço, em seguida para fora, sorriu, voltou para o segurança:
- Você é novo, não é?
- Sou, respondeu o segurança.
- E ninguém falou da trava de bobo?
- O que? Trava de bobo?
- É, essa trava que o pessoal aciona quando o
expediente encerra. Alguém acionou a trava sem você perceber e o
fez de bobo, cara.
- Não to sabendo.
A trava sendo desabilitada, cinco minutos depois tudo
voltava ao normal. O rapaz saiu do banco e quem esperava para entrar não teve
dificuldade nenhuma.
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