sábado, 15 de maio de 2021

Contos surrealistas 63

Confissões nada confiáveis.

25.08....

Faço aqui uma pergunta: “Qual é o prazer de matar?” Não o matar gratuito, mas aquele matar para eliminar, tirar do mapa quem está atrapalhando. Provar a vibração da carne, veia, sangue e músculo pulsando ao contato da mão. Apertar o pescoço aos poucos, bem devagar, sentir o fluir do sangue se paralisando no último suspiro.

Tiro, facada, paulada não tem graça, a morte instantânea é fria, não provoca prazer e, muito menos satisfação. Você não sente a vida escorrendo das suas mãos. Só os covardes usam desse ardil, não sabem o que é prazer, não sabem o que é o pulsar da emoção. Emoção não é só viver os instantes, os momentos de futilidade burguesa.

Empurrar a pessoa na linha do metrô, na frente do ônibus ou escada abaixo é ato caridoso. Não se pode nos dias de hoje ser caridoso, a caridade é só para os santos, para os que têm a vida regada no cotidiano imbecil. Deixa de captar o desespero se debatendo sob as mãos. Fica sem aquele olhar lentamente se fechando ao implorar vida. Não se ouve o ar fugindo pela garganta transformada num som horripilante e ao mesmo tempo fascinante. O que dá satisfação não é a morte em si, mas o debater dos braços e pernas, o olho na luta para se manter aberto, o som que sai rasgando a garganta e, por fim, o silencio dos movimentos, a paralisação total da vida.

Exausto e contente, você celebra o poder, quase orgástico, da sua força sobrepujando outra que se extingue ao mesmo tempo em que você, confiante sente que nada o impedirá de continuar o caminho.

Pense nisso, só assim o mundo se tornará melhor.

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