sexta-feira, 14 de maio de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.674(2021)

             Todas as noites dormia embriagado. Tomava duas doses dupla de uísque e quatro cervejas acompanhadas de salgadinhos. Cambaleante desabava na cama de colchão imundo. E todas as manhãs se levantava com a cara amarrotada e fedendo. Tomava um rápido banho, vestia seu cuecão e perambulava pela casa ouvindo óperas num volume alto. Ninguém tinha noção de quanto tempo ele morava naquela casa meio barroca meio gótica caindo aos pedaços. Uns diziam que ele nasceu junto com a casa, outros que ele a recebera de herança de um amigo íntimo, e os que nada sabiam diziam que ele estava ali desde a revolução de sessenta e quatro. Na verdade, ninguém sabia de nada, nem ele sabia. E não se preocupava com isso, seu lema era viver como se deveria viver, bem consigo mesmo e com o universo. O que preocupava o pessoal era o cuecão como chamavam. Essa era sua única vestimenta. Passava o dia inteiro com ela, fosse na padaria, no supermercado, farmácia não importava o Cuecão estava lá. Aliás, ninguém sabia mais o seu nome, passara a ser apenas o Cuecão. E assim, ele vivia e assim foi por muitos anos e anos. Até que um dia ele saiu de casa, abriu o pequeno portão, passou pela farmácia, padaria, supermercado e virando à esquerda, de uma hora para outra, sumiu. Ficaram uma semana esperando a sua volta e nada dele voltar. Quando num sábado, o carro da polícia parou em frente a casa do Cuecão e entrou. Tinham ligado para a polícia relatando do desaparecimento do Cuecão. Encontraram seu corpo em decomposição caído no meio do quarto. Ataque cardíaco foi o diagnóstico. Um ano depois sua casa foi demolida e ergueram no lugar um sobrado que foi difícil vender.

            É isso... ou, não é?

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