quinta-feira, 13 de maio de 2021

Contos surrealistas 64

 

Até amanhã, amor.


- O dia todo esteve cinzento parecendo que ia chover, no entanto, agora à noite, a temperatura está gostosa, apesar do vento gelado. Sabe acho que hoje...

- Mãe, por favor, não comece.

- Mas, Igor não é justo...

- E o que é justo, mãe, me diga o que é justo?

- Ah!...

- Justo é fazer o que queremos fazer, essa é minha opinião.

- Não é justo todas as noites deixar você sozinho neste quarto frio, mórbido, sem música...

- O que a senhora quer, todo quarto de hospital é assim, e não preciso de música, tenho as lembranças.

- Por que não fazemos diferente? Só hoje, por favor!

- Nem hoje e nem amanhã. Daniel, por favor, a ajude-a.

- Claro, pode ficar sossegado. Dona Marta, temos que ir...

- Mãe, o que combinamos?

- Eu sei, mas não é o certo. Onde já se viu deixar você sozinho e se você mor...

- Morrer? E daí! Já expliquei, não quero choro, não quero saber de vocês chorando.

- Escuta, não vou chorar.

- Já está com lágrimas nos olhos, vamos mãe, seja forte como sempre, por favor.

- Boa noite, amor.

- Boa noite, meus amores.

Pronto, mais uma vez sozinho com seus pensamentos. Sentiu que não os veria mais. Bem antes de se despedirem tinha a certeza que essa era a última noite que dizia: Boa noite, amor. A doença com suas maquinações invisíveis aos poucos avançou comendo-o por dentro. Que merda! Uma leveza o dominou, tinha a impressão que flutuava. Um sossego na alma apaziguada agradeceu por todos os momentos bons que viveu. Uma lágrima deslizou e morreu no canto esquerdo da boca. Chamou a enfermeira.

- Pois não, o que o senhor deseja?

- Por favor, coloque esse cd.

Assim que a primeira nota de Panis Angelicus soou na voz de Milton Nascimento, fechou os olhos e se deixou levar.

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