Até amanhã, amor.
- O dia todo esteve cinzento parecendo que ia chover, no entanto, agora à noite, a temperatura está gostosa, apesar do vento gelado. Sabe acho que hoje...
- Mãe, por favor, não comece.
- Mas, Igor não é justo...
- E o que é justo, mãe, me diga o que é justo?
- Ah!...
- Justo é fazer o que queremos fazer, essa é minha
opinião.
- Não é justo todas as noites deixar você sozinho
neste quarto frio, mórbido, sem música...
- O que a senhora quer, todo quarto de hospital é
assim, e não preciso de música, tenho as lembranças.
- Por que não fazemos diferente? Só hoje, por favor!
- Nem hoje e nem amanhã. Daniel, por favor, a ajude-a.
- Claro, pode ficar sossegado. Dona Marta, temos que
ir...
- Mãe, o que combinamos?
- Eu sei, mas não é o certo. Onde já se viu deixar você
sozinho e se você mor...
- Morrer? E daí! Já expliquei, não quero choro,
não quero saber de vocês chorando.
- Escuta, não vou chorar.
- Já está com lágrimas nos olhos, vamos mãe, seja
forte como sempre, por favor.
- Boa noite, amor.
- Boa noite, meus amores.
Pronto, mais uma vez sozinho com seus pensamentos.
Sentiu que não os veria mais. Bem antes de se despedirem tinha a certeza que
essa era a última noite que dizia: Boa noite, amor. A doença com suas
maquinações invisíveis aos poucos avançou comendo-o por dentro. Que merda! Uma
leveza o dominou, tinha a impressão que flutuava. Um sossego na alma apaziguada
agradeceu por todos os momentos bons que viveu. Uma lágrima deslizou e morreu
no canto esquerdo da boca. Chamou a enfermeira.
- Pois não, o que o senhor deseja?
- Por favor, coloque esse cd.
Assim que a primeira nota de Panis Angelicus soou na voz de Milton Nascimento, fechou os olhos e se deixou levar.
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