sábado, 1 de maio de 2021

Contos surrealistas 70

Cada um tem a sua vez.

Rachel lavou a louça do jantar. Varreu a cozinha. Colocou o vaso de flores no meio da mesa. E subiu as escadas. Decidiu tomar banho. Tirou a roupa e nua entrou no banheiro. Abriu o chuveiro e deixou a água morna lamber a pele. Não pensava em nada, pelo menos naquele instante. Amanhã tinha uma porção de coisas para fazer, estará o dia inteiro ocupada, mas aquele momento era seu, nada iria atrapalhar o refrescante banho. Ensaboava as partes intimas imaginando-se massageadas por mãos fortes e carinhosas. Sentia os dedos picando os lábios eriçados famintos e desejosos. Os músculos se contraiam num apertar e afrouxar...

Nisso bateram na porta.

- Rachel, você está aí?

Era o Antonio. O que ele queria? Merda não se pode tomar banho sossegada!

- Já vou, gritou.

- Que demora! Sai logo, porra!

- Pode usar o banheiro.

Disse ao chegar à sala. Antonio estirado no sofá, com um copo de uísque, respondeu sem olhar para ela.

- Agora não precisa mais.

- O que?

- Já fiz o que queria.

- Onde?

- No vaso.

- Seu merda, urinou no vaso! Além de matar a planta a sala vai ficar cheirando urina, cretino.

- Quem mandou demorar.

Rachel foi até a cozinha, pegou uma caneca com água e despejou na planta. Tolerava demais Antonio. Estava vendo o dia que explodiria com ele. No entanto, parecia que sua índole feminina ainda tinha muito que agüentar, pois o amava, e o pior é que Antonio tinha noção disso e se aproveitava da tolerância de Rachel. Observando-o estirado no sofá, compreendeu o labirinto de sentimentos que enfrentaria caso continuasse ao lado dele. Era preciso cuidado, não pisar em falso, calcular os intricados fluxos que a levava a agir.

A noite estava bonita. Da sacada chegava até ela o movimento da cidade com barulhos ora difusos, ora claros, músicas, vozes, buzinas, freadas numa pulsação disforme. Nisso, viu um ponto que se aproximava, no principio, um ponto insignificante que aos poucos se transformou numa borboleta transparente. Para sua surpresa, pousou no seu ombro esquerdo. Uma onda de confiança encheu seu peito. Subiu no parapeito da sacada. Abriu os braços e pensou:

- Tudo bem, você consegue. Sempre quis ser uma borboleta.

Olhou para frente e enxergou um mundo novo, bateu os braços e se alçou no espaço.

Antonio ouviu o farfalhar de asas. Chegando à sacada ainda pode ver ao longe um ponto branco desaparecendo na noite. Sentou na cadeira com o copo de uísque na mão. Tinha esperanças que ela voltaria ou, talvez, quem sabe, a sua vez estaria chegando. Não se preocupou mais. Acabou de tomar o uísque e foi dormir.

 

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