Devaneio surrealista.
Abriu a boca. O grito não saiu. Engoliu a raiva enquanto a televisão mostrava uma garota ridícula, de calcinha e sutiã, andando de um lado para o outro num quarto de segunda categoria. A música ensurdecedora invadia os cantos vibrando cristais que tilintavam um no outro. Lembrou de um vídeo do Michael Jackson. Nisso o telefone tocou. Era o síndico pedindo para abaixar o som, os vizinhos estavam reclamando.
- Puta que pariu, não posso fazer o que eu quero é?
Berrou desligando na cara do síndico.
Retirou o CD e, num gesto de desprezo, jogou o pequeno
disco pela janela que voou caindo em cima do carro que passava. Ouviu o
motorista xingar. Não deu atenção, o motorista não poderia saber em qual janela
fora. Colocou uma dose grande de uísque no copo e de um gole só virou garganta
abaixo.
- Puta merda!
Subiu no parapeito da sacada, abriu os braços e se
jogou no vazio. Não teve medo, do sexto andar não morreria, pensou ao sentir o
vento batendo no rosto.
- Viva Santo Daime, gritou engolindo ar.
Esticou os braços para frente e iniciou o voo
vertiginoso. Primeiro subiu bem alto.
- Pra cima e avante.
Depois girou o corpo para a direita numa curva
espetacular. Em seguida para a esquerda bem rasante assustando os transeuntes
despreocupados na Avenida Paulista. Distraído, prestando atenção nas pessoas abobalhadas,
bateu no pilar do MASP caindo dentro do pequeno espelho de água.
- Droga!
Todo molhado, saiu da água suja e fria, resmungando
impropérios. Sem se importar com os curiosos foi deitar-se no sol para se
secar. Não soube quanto tempo dormiu, quando acordou o dia tinha virado noite e
sentiu o vento meio que gelado ferir as pernas nuas. Estava de camisa e cueca,
roubaram a calça jeans. Tendo o peito angustiado, aflito procurou a parte mais
escura da rua puxando a camisa como se com isso aliviasse o constrangimento. Em
cada olhar havia um olhar de reprovação, cada pessoa estava preocupada consigo
mesmo. A individualidade era o fato mais importante do ser humano. Eu estou bem
que se foda os outros, que vença o mais forte, esse era o lema da humanidade.
De repente a bexiga começou a incomodar.
- Caralho, onde vou achar banheiro agora?
Lembrou do Shopping Center Três, não estava longe, acelerou
o passo. Aflito procurou um dos banheiros. Entrou no primeiro esbarrando num
rapaz que saia. Os boxes estavam todos fechados. A timidez impedia que urinasse
nos mijadores pendurados a parede. Não sabia o que fazer. Saiu angustiado.
Entrou em outro e para sua sorte tinha um box livre sem privada, sujo, fedido,
tendo apenas um buraco que parecia uma boca aberta querendo abocanhar o membro.
Enojado voltou ao primeiro banheiro. Os boxes continuavam fechados. Apelou para
os mijadores mesmo. Procurou um no fundo onde achava que poderia urinar
sossegado e respirando fundo para se concentrar num desligamento total, não
reparou no rapaz que se postou ao seu lado.
- Pronto! Puta merda, agora é que não consigo urinar
mesmo. Travei, porra vá urinar em outro lugar, pensou indignado.
Mesmo assim voltou a se concentrar o que não deu
resultado. Arrumou-se e caiu fora. Ao sair o rapaz jogou um beijo ao qual
retrucou com um gesto obsceno. Nisso, o tempo com seu paradoxo intrincado, deu
um giro jogando-o no fluido gasoso onde se viu flanando por cima da cidade.
- Que merda! Virei anjo em Asas do Desejo? Cadê a
minha trapezista?
O silêncio dos inconformados o envolveu placidamente.
Trespassou o núcleo da vida e explodiu em branco e preto. Não há mais choro,
não há mais dor, não há mais dúvida, não há mais angústia, não há mais timidez,
apenas o desejo de ser ele mesmo. O foco é a transformação do amor como
experiência única e humana. E tudo o que importa é beber um café, fumar um
cigarro, olhar a noite, filtrar todas as experiências humanas tão fascinantes
como um beijo e, assim reconhecer a própria natureza humana. O muro caiu, The
Wall tornou-se ícone do próprio passado.
- Mas espere aí! Onde está o terror? Não é esse o
gênero?
- Sim, é esse mesmo.
- Então onde se encontra o terror?
- O terror não está nas letras e muito menos nas
entrelinhas, muito menos ainda na trama ou conteúdo. O terror está nos
leitores, nos comentaristas com seus placares que terão que ler essas linhas, esse
texto é que é o terror, compreende?
- Pirou na batatinha? Escorregou na maionese?
Comeu cocô quando criança?
- Você não compreende. Não sei nada de futebol, menos
ainda de terror, não entendo muito bem de escrever, mas escrevo por isso me
alucinei com Santo Daime para ver o que saia e saiu isso aí, se está bom só os
comentaristas poderão dizer.
- Vou ser sincero. É um amontoado de palavras sem
consistência, não vai prender a atenção de ninguém e muito menos dos
comentaristas.
- É um risco que devo correr. Se tiver um só que
goste, já está bom.
- Você já escreveu coisas bem melhores.
- Não se pode sempre estar escrevendo obra prima,
concorda?
- Não sei, acho que está se depreciando e, o que é
pior, depreciando os competidores.
- Se é isso que está parecendo peço que me desculpem.
- Tomara que o entendam.
Em silêncio fechou a porta do pequeno armário trancando a consciência estampada no espelho. Apagou a luz do banheiro. Na sala, em frente à tela do computador leu atenciosamente o texto. Até que estava bem escrito, não estava tão ruim. Copiou e colou no corpo do e-mail e clicou em enviar. Pronto. Está feito. Agora é só esperar. Desligou o computador, tomou uma dose de uísque. Ficou uns instantes parado no meio da sala com o copo vazio numa das mãos. Por fim, balançando a cabeça, apagou a luz e foi dormir.
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