quinta-feira, 10 de junho de 2021

Contos surrealistas 50

Devaneio surrealista.

Abriu a boca. O grito não saiu. Engoliu a raiva enquanto a televisão mostrava uma garota ridícula, de calcinha e sutiã, andando de um lado para o outro num quarto de segunda categoria. A música ensurdecedora invadia os cantos vibrando cristais que tilintavam um no outro. Lembrou de um vídeo do Michael Jackson. Nisso o telefone tocou. Era o síndico pedindo para abaixar o som, os vizinhos estavam reclamando.

- Puta que pariu, não posso fazer o que eu quero é?

Berrou desligando na cara do síndico.

Retirou o CD e, num gesto de desprezo, jogou o pequeno disco pela janela que voou caindo em cima do carro que passava. Ouviu o motorista xingar. Não deu atenção, o motorista não poderia saber em qual janela fora. Colocou uma dose grande de uísque no copo e de um gole só virou garganta abaixo.

- Puta merda!

Subiu no parapeito da sacada, abriu os braços e se jogou no vazio. Não teve medo, do sexto andar não morreria, pensou ao sentir o vento batendo no rosto.

- Viva Santo Daime, gritou engolindo ar.

Esticou os braços para frente e iniciou o voo vertiginoso. Primeiro subiu bem alto.

- Pra cima e avante.

Depois girou o corpo para a direita numa curva espetacular. Em seguida para a esquerda bem rasante assustando os transeuntes despreocupados na Avenida Paulista. Distraído, prestando atenção nas pessoas abobalhadas, bateu no pilar do MASP caindo dentro do pequeno espelho de água.

- Droga!

Todo molhado, saiu da água suja e fria, resmungando impropérios. Sem se importar com os curiosos foi deitar-se no sol para se secar. Não soube quanto tempo dormiu, quando acordou o dia tinha virado noite e sentiu o vento meio que gelado ferir as pernas nuas. Estava de camisa e cueca, roubaram a calça jeans. Tendo o peito angustiado, aflito procurou a parte mais escura da rua puxando a camisa como se com isso aliviasse o constrangimento. Em cada olhar havia um olhar de reprovação, cada pessoa estava preocupada consigo mesmo. A individualidade era o fato mais importante do ser humano. Eu estou bem que se foda os outros, que vença o mais forte, esse era o lema da humanidade.

De repente a bexiga começou a incomodar.

- Caralho, onde vou achar banheiro agora?

Lembrou do Shopping Center Três, não estava longe, acelerou o passo. Aflito procurou um dos banheiros. Entrou no primeiro esbarrando num rapaz que saia. Os boxes estavam todos fechados. A timidez impedia que urinasse nos mijadores pendurados a parede. Não sabia o que fazer. Saiu angustiado. Entrou em outro e para sua sorte tinha um box livre sem privada, sujo, fedido, tendo apenas um buraco que parecia uma boca aberta querendo abocanhar o membro. Enojado voltou ao primeiro banheiro. Os boxes continuavam fechados. Apelou para os mijadores mesmo. Procurou um no fundo onde achava que poderia urinar sossegado e respirando fundo para se concentrar num desligamento total, não reparou no rapaz que se postou ao seu lado.

- Pronto! Puta merda, agora é que não consigo urinar mesmo. Travei, porra vá urinar em outro lugar, pensou indignado.

Mesmo assim voltou a se concentrar o que não deu resultado. Arrumou-se e caiu fora. Ao sair o rapaz jogou um beijo ao qual retrucou com um gesto obsceno. Nisso, o tempo com seu paradoxo intrincado, deu um giro jogando-o no fluido gasoso onde se viu flanando por cima da cidade.

- Que merda! Virei anjo em Asas do Desejo? Cadê a minha trapezista?

O silêncio dos inconformados o envolveu placidamente. Trespassou o núcleo da vida e explodiu em branco e preto. Não há mais choro, não há mais dor, não há mais dúvida, não há mais angústia, não há mais timidez, apenas o desejo de ser ele mesmo. O foco é a transformação do amor como experiência única e humana. E tudo o que importa é beber um café, fumar um cigarro, olhar a noite, filtrar todas as experiências humanas tão fascinantes como um beijo e, assim reconhecer a própria natureza humana. O muro caiu, The Wall tornou-se ícone do próprio passado.

- Mas espere aí! Onde está o terror? Não é esse o gênero?

- Sim, é esse mesmo.

- Então onde se encontra o terror?

- O terror não está nas letras e muito menos nas entrelinhas, muito menos ainda na trama ou conteúdo. O terror está nos leitores, nos comentaristas com seus placares que terão que ler essas linhas, esse texto é que é o terror, compreende?

   - Pirou na batatinha? Escorregou na maionese? Comeu cocô quando criança?

- Você não compreende. Não sei nada de futebol, menos ainda de terror, não entendo muito bem de escrever, mas escrevo por isso me alucinei com Santo Daime para ver o que saia e saiu isso aí, se está bom só os comentaristas poderão dizer.

- Vou ser sincero. É um amontoado de palavras sem consistência, não vai prender a atenção de ninguém e muito menos dos comentaristas.

- É um risco que devo correr. Se tiver um só que goste, já está bom.

- Você já escreveu coisas bem melhores.

- Não se pode sempre estar escrevendo obra prima, concorda?

- Não sei, acho que está se depreciando e, o que é pior, depreciando os competidores.

- Se é isso que está parecendo peço que me desculpem.

- Tomara que o entendam.

Em silêncio fechou a porta do pequeno armário trancando a consciência estampada no espelho. Apagou a luz do banheiro. Na sala, em frente à tela do computador leu atenciosamente o texto. Até que estava bem escrito, não estava tão ruim. Copiou e colou no corpo do e-mail e clicou em enviar. Pronto. Está feito. Agora é só esperar. Desligou o computador, tomou uma dose de uísque. Ficou uns instantes parado no meio da sala com o copo vazio numa das mãos. Por fim, balançando a cabeça, apagou a luz e foi dormir.

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