domingo, 6 de junho de 2021

Contos surrealistas 52

                             Paris Ainda é Uma Festa

 

Com dificuldade, conseguiu fechar a mala. Tudo pronto, só esperava o táxi. Sentia-se finalmente livre. E a partir de hoje, o que faria com a liberdade que conquistara? Com a sensação de não ter que explicar mais nada, uma leve angústia surgia, roendo a paz. Depois de tantos anos, descobriu a coragem. Era outro. Reconhecia que estava mudado.

Nisso, ouviu a buzina do táxi. Arrastou a bagagem com a ajuda do motorista, que reclamou do peso, colocando-a no porta-malas. "É que estou levando livros, por isso, está pesada", disse a ele.

Enquanto o carro fazia o trajeto por avenidas perfeitas para Ayrton Senna, seus olhos iam acompanhando as formas dos prédios tão bem conhecidos, pela última vez. Não estava com remorso, sabia que um dia isso aconteceria, e esse dia chegou, disse para si mesmo. De leve, bateu uma pequena saudade no peito, que o obrigou a dar um suspiro.

Na rodoviária, colocaram a mala num carrinho. Ele pagou ao taxista, e se distraiu um pouco, observando o indo-e-vindo das pessoas. Antes de embarcar, entrou no banheiro. Trancou-se no último boxe e, saiu, momentos depois, levando apenas a mochila nas costas.

Três dias depois, enquanto tomava café num bar de Saint-Germain-des-Prés, em Paris, numa manhã de sol esplêndido, a polícia arrombava um boxe no banheiro masculino da rodoviária e encontrava uma mulher morta dentro da mala, que estava ali.

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