Paris Ainda é Uma Festa
Com dificuldade, conseguiu fechar a mala. Tudo
pronto, só esperava o táxi. Sentia-se finalmente livre. E a partir de hoje, o
que faria com a liberdade que conquistara? Com a sensação de não ter que
explicar mais nada, uma leve angústia surgia, roendo a paz. Depois de tantos
anos, descobriu a coragem. Era outro. Reconhecia que estava mudado.
Nisso, ouviu a buzina do táxi. Arrastou a bagagem
com a ajuda do motorista, que reclamou do peso, colocando-a no porta-malas. "É
que estou levando livros, por isso, está pesada", disse a ele.
Enquanto o carro fazia o trajeto por avenidas perfeitas
para Ayrton Senna, seus olhos iam acompanhando as formas dos prédios tão bem
conhecidos, pela última vez. Não estava com remorso, sabia que um dia isso aconteceria,
e esse dia chegou, disse para si mesmo. De leve, bateu uma pequena saudade no
peito, que o obrigou a dar um suspiro.
Na rodoviária, colocaram a mala num carrinho. Ele
pagou ao taxista, e se distraiu um pouco, observando o indo-e-vindo das
pessoas. Antes de embarcar, entrou no banheiro. Trancou-se no último boxe e,
saiu, momentos depois, levando apenas a mochila nas costas.
Três dias depois, enquanto tomava café num bar de Saint-Germain-des-Prés, em Paris, numa manhã de sol esplêndido, a polícia arrombava um boxe no banheiro masculino da rodoviária e encontrava uma mulher morta dentro da mala, que estava ali.
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