sexta-feira, 23 de julho de 2021

Contos surrealistas 31

                                 Pernas e boca.

 - Foi então que eu desenhei Pernas e Boca. Fiz o desenho rápido, sem dificuldade, esbocei, defini as linhas, corrigi, tirei as arestas, aparei e pintei. A intenção ao iniciar o desenho, era usar uma cor só, mas no momento em que a caneta tocou as fibras do papel é que decidi pelas duas cores. Descartei o vermelho por achar o pigmento muito intenso, muito forte. Por isso optei pelo azul. Enquanto assistia um pornô explicito pela teve a cabo, esbocei, desenhei e terminei o que chamei de minha obra prima. Ultimamente esse é o meu método de trabalho.

- Desde quando passou a usar esse esquema? – perguntou o repórter.

- Desde o dia em que conheci Rosiane. Nossa que mulher!

- E nesse dia vocês transaram?

- Sim, claro. Creio que não poderia ser de outra maneira. A alquimia, tanto da parte dela como da minha, foi estupendamente favorável. Que noite maravilhosa. Outra vai ser difícil acontecer.

- Por quê?

- Por que propus tudo a ela, casamento, troca de aliança, de anel, morar juntos, alugar apartamento no litoral, carro, estava decidido a tudo se ela dissesse apenas um sim, um pequeno e simples sim. Largaria tudo e ia morar com ela. Mas, ela não aceitou. Não entendo as mulheres. Interessam-se pela gente, se entregam, dizem mil coisas, prometem não esquecer, de telefonar, mandar e-mail... Para depois sumirem. Olha já estou cansado com esse tipo de pessoa, cansado... O engraçado é que com Rosiane parecia ser diferente. Tudo bem, me iludi, coloquei o burro na frente da carroça, talvez tenha ido com muita sede ao pote, sonhei alto, acho que foi isso. É uma pena, tinha tudo para dar certo, mas...

- E porque não deu certo?

- Não sei. Por causa de uma foto que mandei via torpedo. Foi o que me disse. Engraçado, se dizia cabeça aberta, atitude despudorada, expressando o que lhe vinha à mente. Sabe o que ela me disse?

- O que foi que ela te disse?

- Lembrei de uma personagem que fez muito sucesso entre os internautas, a Malu, de A Dama do Metrô.

- Lembro sim, houve até um boato que seria um seriado de televisão. Mas parece que foi só boato.

- Então, ela disse: quero beijar o espaço entre os teus testículos e o teu ânus. Não é bem típico da Malu?

- Realmente.

- Então pensei, ela vai gostar se eu mandar uma foto do meu pênis. E só mandei porque tive a impressão que estava me dando o fora, que não estava querendo mais se encontrar comigo. Veja bem. Tínhamos combinado de nos encontrarmos tal hora naquele dia. Eufórico, todo contente, tomei banho, me aprontei e, ansioso consultava a todo o momento o relógio. Pois, bem, uma hora antes ela me liga dizendo que não poderia ir por causa do serviço, tinha que entregar um projeto e que iria sair tarde. Sou paciente até demais, confesso, mas desconfiei. Disse a mim mesmo. Pronto, mais uma que ficará só no primeiro encontro. Essa foi a sua primeira desculpa para não me ver mais. Foi então que com raiva mandei a foto. Sei que errei, mas será que não pode relevar e reconsiderar o que houve, mesmo que pouco, entre a gente? Não, não pode não é? É uma pena, não posso fazer mais nada.

- Por causa disso é que mudou o método de trabalhar?

- Sim, com esse método parece que fico mais perto dela, não sei, mesmo não querendo me ver mais, é como um orgasmo entende? Não entende claro que não, acho que nem Freud entende.

- Quando vai ser o lançamento do novo livro?

- Talvez para o fim do ano.

- E a exposição?

- Será mês que vem, não sei por que, mas está sendo muito esperada essa exposição.

- Vai expor seus últimos trabalhos?

- Sim, principalmente esses que desenho assistindo filmes pornôs.

- Jorge João Jorge, obrigado pela entrevista e desejo que a exposição seja um sucesso.

- Eu que agradeço.

- Assim, caros ouvintes, O Entrevistado de Hoje apresentou o controvertido e badalado artista plástico Jorge João Jorge. Obrigado a todos e até o próximo programa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...