O cartaz.
Para quem saí do Conjunto Nacional ou mesmo da Estação
do Metrô Consolação, descendo a Rua Augusta, sentido centro da cidade, do lado
direito, esquina com a Rua Luiz Coelho, há o Bar e Restaurante Monarca. É uma
construção simples com um enorme balcão em forma de ferradura, um pouco
apertado, diga-se de passagem, tendo à esquerda diversas mesas que se prolonga
até o reservado onde, logo em seguida, pode-se ver a cozinha. Apesar de que,
como todos os estabelecimentos da região, ser um pouco caro, talvez por ser
perto ou pela comida boa ou, ainda, pelo bom atendimento, Figueroa assim como
outros amigos do escritório, almoça todos os dias no Bar e Restaurante Monarca.
Quem entra pela porta que dá para a Rua Luiz Coelho,
virando à esquerda, vê um pequeno cartaz fixado a parede acima do longo espelho
horizontal. As proporções desse cartaz são pequenas, mas o que lhe garante o
impacto é a figura masculina que toma conta de todo o espaço. Num fundo de cor verde
oliva, puxando para o preto, em primeiro plano, em traje elegante, há a figura
de um rapaz que impressiona notadamente pela impecável roupa que lhe cai realçando
as linhas do corpo. Nem o dono, nem a mulher da caixa, nem os garçons tem a
idéia e, muito menos nem a noção de quando tempo esta ali essa propaganda
ridícula, que não combina com o ambiente do restaurante. E por incrível que
possa parecer o dono não faz questão nenhuma em tirá-lo da parede. Tem-se a
impressão que o cartaz é parte, não só da parede como do estabelecimento todo,
tirando-o ficará no lugar um buraco mais terrível e grotesco.
Samuel Figueroa, rapaz de seus vinte ou talvez trinta
anos com cara de dezessete, contabilista, estudante de propaganda, sempre faz o
mesmo trajeto de casa para o serviço do serviço para casa. Raramente muda. Tem
o costume de todas as manhãs passar no Monarca e tomar um café bem quente com
pão na chapa. Quando, por um motivo qualquer e, quase sempre inesperado, é
obrigado a mudar o percurso, o dia torna-se terrivelmente monótono, tudo dá
errado, chove, sobrecarrega-se de serviço, tropeça, esbarra nas pessoas, leva
bronca do chefe, enfim, é um desastre.
Quando Figueroa entrou no restaurante pela primeira
vez, deparou com a propaganda, pois é impossível não vê-la, porém não deu importância.
Lembra que era uma quarta-feira, dia de feijoada, o restaurante cheio, foi
preciso esperar uma mesa, sendo que, por fim, sentou em frente ao espelho que refletia
a figura masculina. Hoje estando numa posição desagradável, numa imobilidade
involuntária, pode-se até dizer, prisioneiro, sempre que levantava a cabeça,
ora para tomar um gole de cerveja, ora para devanear os olhos enquanto
mastigava, estava a todo o momento notando o ridículo cartaz.
Não sabia dizer o porquê de a sua atenção ficar presa
àquela figura. Não era uma figura importante e, nem assim, bela, mas havia um
que de mistério que o levava a admirá-la. As palavras grotescas do anúncio feriam
os olhos de tão mal posicionadas, jogadas numa deformidade cujas sílabas
separadas, não condiziam com a gramática. Não havia um capricho ético de beleza
e nem de conteúdo simétrico. Todos os dias, no entanto, prestava atenção
obsessiva ao cartaz.
Um dia, de um momento para o outro, começou a sorrir
devagar, do sorriso passou a risada, e quando se deu conta, estava gargalhando.
Com muito esforço, com lágrimas nos olhos se conteve comprimindo os lábios com
toda a força, todos o olhavam sem entender o que se passava. Samuel cortando um
pedaço de frango, não tinha como se fazer entender, era uma situação difícil,
mesmo que quisesse não o entenderiam. Isto porque, venho-lhe a mente a cena de
um filme antigo, onde o personagem era seguido pela moça gigante do outdoor que
ficava em frente à janela do quarto. Professor de meia idade, moralista ao
extremo, sentia-se aviltado com o retrato da imensa mulher com os seios
descomunal quase a mostra. No final do filme o coitado é levado ao hospício
sendo seguido pela mulherona.
Os dias um apos o outro deslizava o cotidiano de todos
e todos de uma maneira ou de outra, seguia o curso da vida. Figueroa dentro da sua
história, personagem principal da sua peça, ao entrar no Monarca, era tomado de
uma excitação fora do comum, mas contida, não podia se dar ao vexame do
ridículo. Procurava sentar numa posição em que pudesse, durante a refeição,
admirar o grotesco cartaz. Em principio mecanicamente, sem se dar conta, estava
com os olhos fixos na figura que, para ele nos primeiros instantes o irritava,
e que agora, passou a agradá-lo. Não tinha controle, a mente comandava os
gestos, os olhos... Começou a se sentir mal, desprezível, como deixar-se preso
a algo que, para ele, era ridículo, absurdo. Fazia o maior esforço para se
livrar dessa enigmática força levando-o a demorar, cada vez mais, a permanência
a mesa. Concluiu que estava doente. O pior que ninguém acreditaria nele, nem o
psiquiatra, talvez o levassem para o hospício seguido pela figura do cartaz.
Ainda bem que ela não era grande como a moça do filme, pensou ironicamente.
Esse namoro platônico pela figura do cartaz, ou talvez
pelo cartaz todo, absurdamente já se desenrolava por um bom tempo. Certa vez,
era um dia frio, garoava, o Monarca não estava muito cheio, assim que chegou se
dirigiu para a mesa predileta, fez o pedido e, enquanto esperava, contemplou a
figura. Sentiu um tremor correr pela espinha obrigando-o a fechar a jaqueta
jeans. Figueroa compreendeu. Ele queria ser aquela figura presa ao papel verde
oliva parecendo preto, talvez, todo ensebado de gordura e pó. Queria estar ali
preso olhando para quem olhava para ele. Absurdo! Ridículo! Gritou a voz do
pensamento dentro do peito. Ser aquele rapaz, viver a vida dele, saber como se
sentia preso a parede. Como seria? Se eu fosse você...
Deprimido com a idéia, chamou o garçom, pediu a conta,
tomou a última cerveja, pagou e ao ficar em pé, a vista escureceu, não deu
tempo de se segurar, caiu por cima da mesa.
Samuel Figueroa, rapaz de seus vinte ou talvez trinta anos com cara de dezessete, contabilista, estudante de propaganda, que sempre fazia o mesmo trajeto de casa para o serviço do serviço para casa, sentia-se preso. Não conseguia mexer os braços e nem as pernas. Abriu os olhos. Não pode ser! Como aconteceu? Berrava a mente na expectativa de que conseguisse mover os lábios, mas nada, permaneciam entreabertos num sorriso frio e sarcásticos. Não, quero sair daqui, gritou no silêncio do terror. Mas não era isso que você queria, respondeu a voz do pensamento. Pois então, aqui está você, preso nesse cartaz horrível no lugar do rapaz. Veja, ele está saindo do restaurante todo feliz, veja, olhou para traz sorrindo e está lhe dando adeus, trouxa!
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