segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Contos surrealistas 27

                                         A chuva.

 

1

 

Não parava. Dias que o tempo estava ruim. Silvia Bruno sorriu ao fechar a sombrinha. Entrou na loja. Dava-lhe satisfação ao ouvir a campainha como nos filmes antigos. Era a única loja desse tipo. Às vezes entrava só para ouvir a campainha.  Só que hoje o motivo era o aniversário de Nelsinho. Decidira comprar um presente para ele. A gaveta estava cheia de camisa. E de cueca também. Isqueiro não servia mais, Nelsinho tinha parado de fumar. Ainda bem. Calça ele próprio gostava de comprar. Silvia Bruno tinha uma teoria: variar os presentes. Não como a maioria que dava sempre as mesmas coisas. Não tinha preguiça de procurar, pesquisar, ver o que a pessoa gostaria de receber. Nelsinho todos os anos ao abrir o pacote, dizia:

- Você vive me surpreendendo.

E esse ano Silvia queria mais uma vez surpreender.

Por coincidência era um dia chuvoso, como hoje quando descobriu a loja. Estava andando sem destino, virava a direita numa esquina qualquer, caminhava dois ou três quarteirões, virava para a esquerda noutra avenida... Numa dessas viradas que, ao fundo da rua, viu a pequena loja. Encantada chegou a se emocionar com a vitrine. E mais surpresa ficou ao abrir a porta. A campainha soou anunciando sua entrada. Foi como se o tempo voltasse, em outra época, sentiu-se outra pessoa, vivendo outro lugar. Olhou em volta, o silêncio imperava nos recantos de cada objeto.

- Pois não, o que deseja senhorita?

Silvia Bruno se sobressaltou ao ver ao seu lado um senhor magro, alto, macilento, nariz aquilino, com óculos de lentes grossas e voz anasalada.

- Bem, não sei...

- Se não sabe por que entrou? Quem entra aqui é porque sabe o que comprar.

- Está bem, quando souber eu volto.

- A senhorita é quem sabe.

Assim eram todas às vezes. O dialogo não variava. Dava a impressão que o dono a esperava. Sabia o dia e hora. Ela entrava, ficava observando um móvel, ou um relógio com figuras barrocas, outras uma escrivaninha com madeira escura, imaginando por onde aqueles objetos tinham passado ou quem poderia ser o dono, a história de cada um, como seria? Parecia que o dono marcava o tempo em que ela poderia ficar na loja. Não passava, talvez, de cinco minutos, sem que pudesse imaginar de onde, ele surgia ora a sua frente, ora atrás dela assustando-a.

- Pois não, o que deseja senhorita?

- Não sei, passei...

- Se não sabe por que entrou? Quem entra aqui é porque sabe o que comprar.

- Está bem, quando souber eu volto.

- A senhorita é quem sabe.

Assim foi por muito tempo, mas hoje seria diferente, disse ao fechar a sombrinha regozijando com o som da campainha.

- Pois não, o que deseja senhorita?

- Estou procurando algo para o meu namorado.

- Ah! Hoje a senhorita sabe o que quer.

- Sim, claro.

- E o que é? - disse lançando um olhar a volta.

- Bem, vejo que o senhor não...

- Se está esperando ver alguma cadeira de espaldar alto* sinto dizer-lhe que aqui não vai encontrar.

- Leu meu pensamento?

- Não Senhorita. Conheço a história e hoje duas pessoas destrambelhadas vieram perguntar por ela.

- Vejo que o senhor não gostou do livro.

- Não li Senhorita. Soube pelos jornais.

- Entendo.

- A Senhorita veio conversar ou comprar algo para o seu namorado?

- Ah! Desculpe.

- Não gosto de perder tempo com conversas, Senhorita.

Silvia Bruno dirigiu-se ao fundo da loja. Pegou uma caixa marrom tendo um orifício em cima e um botão ao lado.

- Vou levar essa máquina fotográfica.

- Câmara fotográfica, Senhorita.

- Isso mesmo...

- Vai prender a alma das pessoas, Senhorita?

- O senhor acredita?

- Tudo é possível, Senhorita. Esse precioso objeto tem má fama, o último dono devolveu por achar que estava enlouquecendo, Senhorita.

- Como pode um inocente objeto enlouquecer alguém?

- Não sei apenas vendo a quem interessa possuir o que não tem Senhorita.

- E o que eu não tenho?

- Talvez a verdade, Senhorita.

- Bobagem, meu Senhor.

- Assim espero que seja, Senhorita.

Silvia Bruno ao sair da loja, abriu a sombrinha e, ao dobrar a esquina já não lembrava mais da conversa, nem do dono e nem da loja.  

 

2

 

Silvia Bruno pelo o que podia lembrar, não tinha certeza se a festa fora um sucesso ou não. Nelsinho ao abrir o presente mais uma vez dissera:

- Você me surpreende mulher.

Só que aquele “me surpreende” não teve o mesmo impacto dos outros anos. Deu a impressão que Nelsinho se cansava dos seus presentes surpresa. Não disse, mas para ela a noção que tinha era que ele estava querendo voltar aos presentes normais, os corriqueiros. Nelsinho não expressou em palavras, mas seus olhos verdes manchados de castanhos, conforme os sentimentos o afligiam, diziam muito mais. Silvia Bruno aquietou-se dentro dela. Continuou agindo normalmente. Mesmo sabendo que a câmara fotográfica seria mais um enfeite na estante da sala, Nelsinho colocou-a a frente do peito, satirizando como se batia uma foto antigamente, apertou o botão ao lado. Por uns instantes a cena congelou. Por milésimos de segundos o ambiente deu um close de cento e oitenta graus revelando toda a verdade da sala e quem estava nela. E o que viu deixou-a constrangida, talvez até magoada. Assim que o giro se completou, só pensava ir para um lugar onde não pudesse ver aquelas pessoas.

Sentada no canto da sala, com o copo de uísque, brincando numa atitude desafiadora com os cubos de gelo, notou toda a hipocrisia em cada gota da bebida. Ouviu no silêncio dos nervos o rancor e inveja de todas as mulheres dirigidas a ela sem o saber o porquê. Nelsinho agia diferente, não era mais o mesmo, lançava em sua direção a arrogância narcisista prevalecendo o seu lado machista de conquistador. Por que não percebeu antes? Será que o vendedor tinha razão?

- Não sei apenas vendo a quem interessa possuir o que não tem Senhorita.

E o que ela não tinha? A verdade, a verdade de todos dançando no ritmo erótico dos corpos suados de uísque e cerveja. Um nojo repulsivo invadiu seu corpo, pele e nervos. De quem era a culpa? Olhou para o presente esquecido em cima da mesa. O vendedor tinha razão? A máquina fotográfica...

- A câmera fotográfica, Senhorita.

A câmera fotográfica que seja, revelava a foto do íntimo das pessoas, capturava num flash abstrato a verdade escondida por mascaras das mais variadas formas. E se ela apontasse para alguém? Quem escolheria? Não, as amigas não me interessam, disse pensativa pegando a câmara de cima da mesa. Apontou para Nelsinho que dançava com uma das suas amigas. No mesmo instante, a cena se congelou num giro de cento e oitenta graus. Assim que o giro completou a trajetória, Silvia Bruno entendeu que ela não era a pessoa que pensava ser e, por outro lado, viu que Nelsinho trazia dentro dele a obscura perversa realidade revelada naquele momento aos seus olhos. E então percebeu. Eram dois desconhecidos. Daquele dia em diante, passaram cada um a viver o seu mundo fútil e egoísta.

 

3

 

Dois anos mais tarde, andando distraída, virou à esquerda e dois quarteirões depois, virou a direita, topou com a pequena loja no fundo da rua. Fechou a sobrinha e entrou ouvindo a campainha anunciar sua presença. Sem saber de onde surgiu se sobressaltou com o vendedor:

- Pois não, o que deseja senhorita?

- Bem, não sei...

- Se não sabe por que entrou? Quem entra aqui é porque sabe o que comprar.

- Está bem, quando souber eu volto.

- A senhorita é quem sabe.

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