sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Contos surrealistas 28

                             Liniara.

 

Esquecida num canto do sótão, empoeirada foi onde a encontrou. O cabelo de loiro estava embranquecido e embolorado. O vestido comido pelas traças teria que ser trocado. As pernas era só passar um pano úmido com uma solução para lustrar a madeira. Um dos braços estava solto, o que não havia problema nenhum. A articulação da boca meio emperrada com um óleo próprio solucionaria o defeito. O olho de vidro pintado, tanto o esquerdo como o direito, não sofrera nada, parecia que tinham sido feitos ontem. Uma sensação esquisita perpassou a espinha num arrepio. Desviou os olhos dos olhos da boneca. Dois dias depois a boneca consertada estava sentada na cômoda encostada à parede.

Durante o jantar em que o assunto era sobre os costumes antigos que estavam de volta, como a ventriloquia, o que achavam de mau gosto, o avô materno aproveitou a deixa e disse que um dos seus tios fizera sucesso com isso e, achava, não tinha muita certeza, que no sótão talvez tivesse uma ou duas bonecas usadas por ele. Liniara formada em Estudos Extra-sensoriais Programada Sobre Vidas Antigas mostrou-se interessada. O avô alimentou sua curiosidade, não só contando como seu parente se tornou ventríloquo, como também, citou filmes antigos sobre o assunto.

Liniara na Biblioteca Central, depois de assinar a autorização responsabilizando-se se algo lhe acontecesse, pegou as caixas de fitas e se dirigiu para o departamento de áudio visual. Atentamente leu o manual dos aparelhos antigos que só existiam na Biblioteca. Levou um tempo para entender os botões de liga e desliga de volume, sintonia, contraste, brilho e outras configurações que não existem mais. Hoje, com a eliminação dessas caixas grandes que, conhecidas como televisão, home theater, computador, laptop tudo passou a ser projetado, via ondas magnéticas, na parede da sala, onde com um simples toque no painel personalizado, tinha-se tudo a mão. Liniara não conhecia ainda, mas já ouvira falar da mais recente novidade: o painel acionado pela mente. O que facilitaria muito, com ele a projeção das imagens seria em qualquer parede, não precisaria de uma parede especifica.

Com as costas doloridas, os olhos ardendo, Liniara saiu do imponente edifício recebendo no rosto o sol escaldante da tarde que morria. Depois de mais de quatros horas vendo filmes, documentários, entrevistas de uma época que não viveu, é que pode ter uma idéia do porque do fascínio do ventriloquismo estar novamente em evidência. Os gregos chamavam de gastromancia e era associado às práticas divinatórias da necromancia, dando a entender que o espírito do morto estava presente para dar informações do além-túmulo, o que depois, na Idade Média, foi associada à feitiçaria. Somente no século XVI é que, se desligando das doutrinas espiritualistas e das mágicas e fugas maravilhosas, foram se tornando artes voltadas aos espetáculos teatrais e circenses, sem conotações místicas.

E agora, a boneca estava ali, a sua frente em cima da cômoda encostada à parede. Não sabia explicar, aqueles dois olhos seguiam seus movimentos. Foi apenas curiosidade que a levou vasculhar o sótão. E como desculpa, fez a pesquisa como complemento aos estudos que elaborava para o fim de ano. O que a deixou mais intrigada, foram os filmes onde os bonecos criam vida e passam a ser o alter ego do próprio manipulador. Não podia deixar que boneca a dominasse. Por isso, jogou no fundo do baú e fechou a chave.

No dia seguinte levantou cedo sem que ninguém notasse. Tinha uma palestra a apresentar no auditório da Academia de Ciências. Tomava notas ao longo do texto quando o professor chegou:

- Está pronta, Liniara?

- Sim.

- Então pode entrar no auditório e começar a palestra.

- Obrigada.

Liniara subiu ao estrado e todos puderam perceber seus olhos estáticos, de vidro e a articulação da boca movendo-se com dificuldade. Esquecera de colocar óleo...

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