Liniara.
Esquecida num canto do sótão, empoeirada foi onde a
encontrou. O cabelo de loiro estava embranquecido e embolorado. O vestido
comido pelas traças teria que ser trocado. As pernas era só passar um pano
úmido com uma solução para lustrar a madeira. Um dos braços estava solto, o que
não havia problema nenhum. A articulação da boca meio emperrada com um óleo
próprio solucionaria o defeito. O olho de vidro pintado, tanto o esquerdo como
o direito, não sofrera nada, parecia que tinham sido feitos ontem. Uma sensação
esquisita perpassou a espinha num arrepio. Desviou os olhos dos olhos da
boneca. Dois dias depois a boneca consertada estava sentada na cômoda encostada
à parede.
Durante o jantar em que o assunto era sobre os
costumes antigos que estavam de volta, como a ventriloquia, o que achavam de
mau gosto, o avô materno aproveitou a deixa e disse que um dos seus tios fizera
sucesso com isso e, achava, não tinha muita certeza, que no sótão talvez
tivesse uma ou duas bonecas usadas por ele. Liniara formada em Estudos
Extra-sensoriais Programada Sobre Vidas Antigas mostrou-se interessada. O avô
alimentou sua curiosidade, não só contando como seu parente se tornou
ventríloquo, como também, citou filmes antigos sobre o assunto.
Liniara na Biblioteca Central, depois de assinar a
autorização responsabilizando-se se algo lhe acontecesse, pegou as caixas de
fitas e se dirigiu para o departamento de áudio visual. Atentamente leu o
manual dos aparelhos antigos que só existiam na Biblioteca. Levou um tempo para
entender os botões de liga e desliga de volume, sintonia, contraste, brilho e
outras configurações que não existem mais. Hoje, com a eliminação dessas caixas
grandes que, conhecidas como televisão, home theater, computador, laptop tudo
passou a ser projetado, via ondas magnéticas, na parede da sala, onde com um
simples toque no painel personalizado, tinha-se tudo a mão. Liniara não
conhecia ainda, mas já ouvira falar da mais recente novidade: o painel acionado
pela mente. O que facilitaria muito, com ele a projeção das imagens seria em
qualquer parede, não precisaria de uma parede especifica.
Com as costas doloridas, os olhos ardendo, Liniara
saiu do imponente edifício recebendo no rosto o sol escaldante da tarde que
morria. Depois de mais de quatros horas vendo filmes, documentários,
entrevistas de uma época que não viveu, é que pode ter uma idéia do porque do
fascínio do ventriloquismo estar novamente em evidência. Os gregos chamavam de gastromancia e era associado às práticas
divinatórias da necromancia, dando a
entender que o espírito do morto estava presente para dar informações do
além-túmulo, o que depois, na Idade Média, foi associada à feitiçaria. Somente
no século XVI é que, se desligando das doutrinas espiritualistas e das mágicas
e fugas maravilhosas, foram se tornando artes voltadas aos espetáculos teatrais
e circenses, sem conotações místicas.
E agora, a boneca estava ali, a sua frente em cima da
cômoda encostada à parede. Não sabia explicar, aqueles dois olhos seguiam seus
movimentos. Foi apenas curiosidade que a levou vasculhar o sótão. E como
desculpa, fez a pesquisa como complemento aos estudos que elaborava para o fim
de ano. O que a deixou mais intrigada, foram os filmes onde os bonecos criam
vida e passam a ser o alter ego do próprio manipulador. Não podia deixar que
boneca a dominasse. Por isso, jogou no fundo do baú e fechou a chave.
No dia seguinte levantou cedo sem que ninguém notasse.
Tinha uma palestra a apresentar no auditório da Academia de Ciências. Tomava
notas ao longo do texto quando o professor chegou:
- Está pronta, Liniara?
- Sim.
- Então pode entrar no auditório e começar a palestra.
- Obrigada.
Liniara subiu ao estrado e todos puderam perceber seus olhos estáticos, de vidro e a articulação da boca movendo-se com dificuldade. Esquecera de colocar óleo...
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